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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

05
Jun19

Porque voltei a frequentar bibliotecas?

Cláudia Matos Silva

Porque deixei de ter dinheiro para comprar livros e a casa vai ficando cada vez mais pequena para alojar tanto papel a que a traça chama um petisco. 

 

De há uns anos a esta parte apaguei da minha cabeça a existência de bibliotecas, tal como apaguei a existência de igrejas. Tenho uma boa explicação para tal, pois deixei simultaneamente de ler e crer no Senhor, sem que um facto esteja relacionado com o outro. E desta forma a minha existência foi-se diluindo nos dias, a cada passo um pouco mais estúpida, um pouco mais incrédula, um pouco mais triste. Vazia.

 

Numa tarde de verão e um calor abrasador, chama por mim uma igreja ali ao Chiado e com uns pedintes sentados nas escadas em posição de misericórdia. Subia os degraus pensando, de mim ninguém tem pena, aquela tendência para a vitimização que me persegue e se adensa quando o desconforto fisico se impõe. Era tanto o calor que ao entrar no templo sagrado senti um bafo fresco e reparador. Que maravilha de sitio, escurinho e silencioso, perfeito para fugir ao calor,   mas também à avalanche de turistas que transformou Lisboa uma cidade impraticável.

 

E naquele momento, algo inesperado aconteceu, que só o divino encontrará palavras para explicar. Cruzei o meu olhar com Expedicto, sem demora o amor aconteceu, e as lágrimas escorriam-me pelo rosto. Limpei-as de imediato mas outras quantas deslizavam livremente como numa pista aquática qual onda parque. E para ajudar à festa também o nariz pingava e toda eu me fungava, ouvindo ao fundo os devotos a rezar, terminando o ritual fazendo o sinal da cruz com a ponta dos dedos. 

 

Expedicto, assim se chama, o santo que aos meus olhos nem santo parece mas uma entidade imbuida de glamour e estilo, esmagando uma serpente com as suas botas de cano alto douradas.  Segura o crucifixo como quem diz 'vai de retro ó bicha do diabo' e juro ouvir entoar o canto dos anjos que atravessa as ruas do Chiado e entra sem pedir licença no templo sagrado e  em unissono 'vooooogggggueeeeeeee'. A pose do Expedicto é puro 'voguing', perguntem à madonna que ela não me deixa mentir. 

E se o Expedicto, o santo da minha predileção, conhecido como o  das causas urgentes acordou em mim uma fé adormecida, tudo em nome de um bafo fresquinho. Em dias de calor em que o demónio começa a tomar conta do meu corpo e a motivação foge de mim como o diabo da cruz, a que outro sitio posso recorrer senão à biblioteca, para mim também, um lugar sagrado.  É nela que voltei a acreditar que um livro pode salvar vidas e que palavras não são só palavras mas têm peso, textura, cor, cheiro e muito poder.

 

Compreendi que para ler um livro não preciso de o comprar, e só soube disso quando deixei de ter capacidade financeira para tal, portanto é correcto dizer que há males que vêm para o bem. Hoje posso assegurar-vos que me sabe muito melhor ter em mãos um livro carregadinho de outras vidas, tantas energias e uma enorme vontade de partilha. Espreito sempre a folha que marca quem o requereu e quando o entrego pergunto-me quem mais o irá requerer. Por cada vez que me entregam um livro sinto-me importante, detentora de um tesouro, vou ter de lhe dar bom uso e entregá-lo com estima, deixando nele as minhas impressões digitais.  

No pragmatismo do dia a dia esquecemo-nos de pequenas coisas que ajudam a dar um rumo à nossa vida, por isso tantas vezes nos sentimos perdidos. Às vezes basta voltar a acreditar e ler um bom livro. E a vida volta a valer a pena outra vez.