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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

07
Jan20

Será que os santos têm inveja uns dos outros?

Cláudia Matos Silva

Parecia um castigo do senhor, o todo poderoso, no momento em que entro numa pequena igreja em Coimbra, logo me sinto escorraçada pela voz do guardião do templo 'minha senhora vou fechar a capela'. Do meu cu se soltou um elástico imaginário de tão depressa que foi o meu impeto de levantar e sair. 

 

Eu não sou religiosa, toda a gente sabe disso, gosto no entanto de entrar nas igrejas para me abrigar do sol e para me esconder das multidões. O senhor, o todo poderoso, sabe disso e não vê lá com muitos bons olhos as minhas entradas no seu reino, mas mesmo assim insisto, e naquele 31 de Dezembro lá fui, afoita, entrando de mansinho em busca de uma estátua do meu querido Expedito.

 

Depois de percorrer os quatro cantos da capela, sem vislumbrar o meu amigo das causas urgentes, decidi sentar-me no longo banco de madeira, com os ombros caídos, coloquei as mãos sobre o colo e comecei o meu discurso interno enquanto observava o altar. «Sabe, eu não sou desta paróquia, de quem eu gosto mesmo é do Santo Expedito mas...» e não pude terminar o meu raciocício quando enrompe uma voz grave que ecoa na pequena capela, ameaçando trancar-me lá dentro. Aquele guardião, tão humano quanto eu, punha o peito para fora como quem anuncia que não é só mais um humano, ele e o divino têm lá as suas coisas, talvez um pacto e desse pacto faz parte apenas deixar ficar quem vê como deus, o que diz ser filho de uma senhora que jura a pés juntar ser virgem, é o filho dela o maior de todos os santos, o filho de deus ou o diabo a sete.

 

Já não rua, enquanto fechava a cancela o velho guardião cumpriu o protocolo desejando-me um bom ano. Eu já ia longe passo acelerado e com a sensação de que o senhor, o todo poderoso, tem lá os seus desígnios e os seus caprichos. Entendo que não vá com a pinta do Expedito, que na verdade nem santo à séria é, mas no tempo em que apregoa a igualdade entre os humanos, que tal os santos darem o exemplo e aceitarem que há devotos suficientes para cada um deles e deixarem os egos de parte. 

 

Nisto, a tv emite as imagens do papa Francisco a dar umas palmadas na mão de uma chinoca que parece querer levá-lo para casa e quase lhe arranca o braço. Então e a tolerância, a partilha e o amor pelo próximo? Anda tudo de pernas para o ar cá em baixo mas ao que parece lá em cima no reino dos ceus as coisas não andam melhores. Senhores, organizem-se e da próxima ponham o horário na porta da igreja.