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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

28
Nov19

Será que o universo congemina a nosso favor?

Cláudia Matos Silva

Para quem tem a mania de que lhe caem as moscas todas na sopa, não há sequer a ideia de universo, porque tudo roda em torno do seu umbigo. Portanto, a existir um universo, ele é o próprio, e é um tipo tão importante que se chover é porque efectivamente alguém lhe quer estragar o dia. No seu universo pequenino, em que só ele existe sentado num bonito 'maiple' de pele de leopardo, reflecte como o mundo é cruel. Tudo o que acontece é só para o tramar.

 

Depois há-os de outras espécies, os que entregam tudo ao universo, que o percepcionam como uma entidade ao 'estilo-poderoso'. São cépticos por natureza e se lhes falam em religião tendem a manifestar sinais físicos de desconforto, no entanto, é o universo que tudo rege. Podiam chamar deus ao universo, mas não está na moda acreditar em deus e falar do universo eleva-nos a uma categoria de lunáticos, e isso sim está super na moda. 

 

Eu não sei bem a minha posição, fico a meio caminho para não me comprometer com dogmas e gente doida, então deixo tudo em aberto. Digo que não acredito em deus, mas sou a primeira a gritar de susto 'aiiii meu deusss' entre outros termos com conotações religiosas que nada reflectem a minha religiosidade. No entanto, tenho um santo predilecto, mas não acredito em santos, visito-o às vezes no Chiado. Expedito, assim se chama, li algures que era um santo trendy, o santo da moda, o santo dos nerds, em sumo, o santo em que até é fixe acreditar. Na verdade é possível que o Expedicto seja um mito e até esse aspecto reforça mais a sua força na comunidade 'alternadeiras de geeks indie coise e tal' que usam sacos no ombro (tote bags, soube há pouco tempo o nome oficial) com frases de teor socio-cultural-ambientalista.

 

Uma vez mais, ali me encontro no meio do caminho, meio a atravancar o transito, não sou trendy, nunca fui fixe, nem faço questão de estar na moda mas uso tote bags mas sem mensagens inspiracionais. Prefiro prints de gatos fofos, ou bicicletas tipo pasteleiras, ou imagens de clássicos dos cinema dos 80s ou até chego a pintar umas coisas que não passam de autênticos borrões. Dirão, é artsy,  Não, não é. É só falta de jeito e demasiado tempo livre.

 

Num destes dias, caminhava com a minha tote bag no ombro e puxava vagarosamente um trole cheio de compras pesadas, como sacos de areia e embalagens com comida de gato. Prioridades numa casa meio disfuncional onde o jantar pode ser uma taça de leite com cereais. No entanto aos gatos não lhes falta, nunca, areia limpa, água numa temperatura amena, e aquele petisco molhado que os deixa num estado de agitação, como se estivessem no corredor da morte e aquela fosse a última refeição. Que aflição!

 

Bom, voltando umas linhas atrás, ainda de trole apinhado, sigo por um passeio e ela estaciona mesmo à minha frente. Gosto sempre de a ver, emana boas energias e mesmo que o mundo esteja por um fio ouviremos sempre da sua boca 'está tudo bem'. Como sei que se mantém muito ocupada, não só na profissão, mas pelas tarefas a que se propõe, é complicado marcar encontros com ela. E no entanto, ali estava, mesmo à minha frente, saindo do carro com os seus longos cabelos escuros e um sorriso pepsodent. E logo me saiu um daqueles comentários (que talvez fosse apenas o medo do silêncio constrangedor) 'olha foi o universo a congeminar a nossa favor'. Ela entrou na onda até porque é uma mulher mistica (ela é mandalas, chakras, pedrinhas, meditição e tudo o mais que me passa ao lado) mas aposto que ela acredita mesmo nisso que aquele encontro teve algo de mistico. Eu não faço ideia como o tal do universo funciona mas se for ao estilo lei da atração então faz sentido, porque gosto mesmo muito da sua companhia.

 

Mesmo assim, prefiro aquele pensamento em português e básico que faz de nós aquele povo simples e ainda um bocado saloio ' olha foi mas é uma sorte do caraças tê-la encontrado.' Foram talvez 10 minutos a conversar, eu carregada que nem uma mula, ela prestes a ir ao multibanco para ficar desfalcada pois havia contas a pagar, mas usando as palavras dela 'está tudo bem'. 

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