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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

27
Jun19

Será que as moedas de cêntimo não contam como dinheiro?

Cláudia Matos Silva

 

 

Ao que parece no reino dos carcanhois também há quem se considere  mais importante que os outros, uma espécie de hierarquia dos trocos; no topo está a bonita moeda de dois euros lapidada a prateado e dourado, olha com desprezo para aquela moedinha de 1 cêntimo, muito escura, encardida, mal enjeitada, escondida no fundo da carteira e completamente esmigalhada pela base desta pirâmide. Ninguém parece querer aquele cêntimo que arramalha para cá, arramalha para lá mas nunca se misturando com os demais trocos.

 

Se julgamos que os trocos vivem todos felizes em harmonia chacoalhando qual melodia que nos anima os dias, ou uma orgia das nossas pequenas finanças a acontecer mesmo por debaixo do nosso nariz, pois bem nos enganamos. Por exemplo, em alguns estabelecimentos comerciais hostilizam-se os pequenos cêntimos como se os quisessem atirar à fogueira. Talvez se explique porque diabo pequenos lagos artificiais ou estátuas como a de Santo António em Lisboa estão cobertas de moedas miudinhas. Durante anos pensei que fosse por superstição, hoje estou convencida de que é pura descriminação. Para quê ter aquela quinquilharia escura a ocupar espaço na carteira? Atira-se o preto à tola do santo antoninho, não vá o santo desconfiar se a esmola for demais. 

 

O meu pai gosta de fazer mealheiros por fazer digo construir. Usa da sua habilidade e dificuldade em despegar dos objectos em geral, por exemplo uma lata de ervilhas; limpa-a, recicla-a e constroi mealheiros onde coloca todos os dias uma determinada quantia. Há no entanto alguns desses mealheiros que servem apenas para os miseros cêntimos, como se fosse heresia juntá-los aos demais euros. Já para nem falar no mealheiro das notas, essas senhoras donas às vezes mais engelhadas que os meus panos do pó, recusam terminantemente estar juntos daqueles pretinhos que só servem para complicar as contas.

 

Como presente o meu pai gosta de me oferecer os seus mealheiros feitos de latas de salchicha ou caixas de ferrero roché, sempre a rebentar pelas costuras, pesadissimos e cheios de moedas pretinhas. O que parece um tormento, depois de contados tantos centimozinhos, devidamente embalados em molhos, no fim das contas posso ter ali de mão beijada 50 euros ...só em miúdos. É dinheiro, não é? Conta como todas as outras moedas e notas, ou não?! Então porque motivo quando me apresento com a carteira cheia de pretinhos tenho a sensação de que aos olhos  dos outros o meu dinheiro cheira mal? As empregadas dos hipermercados ficam irritadas e não escondem; respiram fundo, algumas atiram com os cotovelos para cima da bancada como quem diz 'isto ainda vai levar muito tempo', outras parece que ficam amedrontadas como se o facto de terem de conferir aqueles trocos fosse revelar a triste verdade, elas não sabem contar.

 

Vou tentando por isso desfazer-me dos cêntimos faseadamente, não atiro com muitos ao mesmo tempo para cima do balcão porque não quero o funcionário à beira de um fanico nervoso. Da última vez, ao pagar dois cafés, perguntei se preferia aqueles pretinhos ou uma só moeda, visto que podia dar jeito para fazer trocos. 'Ah não, não...não quero moedas dessas porque só me trazem problemas' - disse a simpática senhora. Tentei perceber o que se passou, até porque o seu sorriso adivinhava predisposição para a interação. Contou-me que num dia em que tinha a caixa registadora cheia dessas moedinhas, uma senhora pagou um café com uma nota de 5 euros e como troco recebeu aqueles cêntimozinhos todos. O que não foi de bom tom, de acordo com a cliente, muito ofendida por só terem aquelas moedinhas, as tais que parecem encardidas, coitadas.  A funcionária confirmou-me uma tamanha discussão porque a cliente não queria aceitar as moedas. Recusava andar com aquilo na carteira e argumentava até falta de educação por lhe dar o troco naqueles moldes. Como se não bastasse foi ainda para as redes sociais divulgar a situação com modos de altivez.

 

É por estas e por outros que me parece que o mundo anda todo ao contrário. Consumidos pelo egoismo e individualismo somos incapazes de nos colocarmos no lugar do outro e perceber que numa situação há sempre várias perspectivas e diz o bom senso que devemos tentar perceber o que sente o outro para uma melhor comunicação. No meio desta confusão, eu só me consigo meter no lugar da moeda de 1 cêntimo, a que ninguém quer. Mas vos garanto que se fosse uma pequenita moeda de cêntimo havia de andar escondida numa qualquer dobra da carteira e um dia alguém precisaria de mim. E nessa altura, eu a pobre e encardida moeda escondida , iria fazer-me de parva, e não aparecia. O dono da carteira já na fila do estabelecimento comercial continuava a escarafunchar a carteira jurando que tinha uma moeda de 1 cêntimo, a fila atrás de si começava a crescer e as pessoas impacientavam-se. A puta da moeda não aparece, e o dono da carteira já duvidava da sua própria sanidade. Secalhar não tinha a tal moeda ou então já a gastou, ou perdeu-a.  Bom, para resumir puxa do cartão de multinanco porque só tinha 3.43 e a despesa era de 3.44. Onde raio se meteu a moeda de cêntimo amaldiço-a ainda a matutar, enquanto puxa pelo cartão de multibanco. Só se aceitam pagamentos de multibanco acima dos 5 euros, avisa a operadora. Não há nada a fazer. A compra tem de ser abortada. Mas para consolar o cliente a funcionaria simulando simpatia termina 'tem uma caixa de multibanco lá fora, devem ser uns 5 minutos a pé, a andar bem'.

 

Depois digam-me que as moedas de cêntimo não contam!!

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