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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

20
Jan20

Será que a noite é nossa amiga?

Cláudia Matos Silva

Foi uma afirmação que me saiu num storie no instagram, onde sou bastante activa e faço muitas reflexões.Aproveitei o tema para o trazer aqui em jeito de pergunt,  porque tenho realmente muitas dúvidas que a noite seja assim tão nossa amiga quanto isso. A noite é sorrateira, silenciosa, manhosa, enganadora. Apesar de tudo eu sempre gostei da noite mesmo sabendo que vivê-la faz mal à minha saúde mental.

 

Não julguem que vivo a noite activamente, saindo para os copos entre amigos e cambalhotas de ocasião, nada disso. Eu vivo a noite em casa, calmamente, a fazer coisas que me dão gosto. Faço-o desde o tempo da adolescencia em que da porta do meu quarto para dentro eu podia fazer o que quisesse, então eu ficava acordada a noite inteira. O meu pai nunca compreendeu o que raio eu fazia durante tantas horas acordada, a minha mãe bem mais cúmplice dizia que eu fazia 'as minhas coisas'. E passados tantos anos, assim continuo, noite dentro a fazer as minhas coisas. 

 

Podia descrever que coisas são essas, talvez um dia o faça num outro post, mas não é disso que se trata. Porque motivo não aproveito o dia para fazer as minhas coisas? O dia não me inspira para tais coisas, é verdade, o dia não me inspira de todo se estiver enfiada em casa, bem pelo contrário, deprime-me. O dia é para viver fora de portas, partilhar momentos com os meus ou a conhecer pessoas, a trocar sorrisos, a sentir os cabelos ao vento, a palmilhar uma qualquer praia ou até a ir ao mercado comprar leite, pão e fruta. Por isso guardo as minhas coisas para a noite, porque a noite é silenciosa e tenho a ilusão de ser toda minha. Eu posso fazer o que bem entender que não está lá ninguém para me julgar. A noite é a sensação de impunidade ao assalto que faço ao frigorifico para me empanturrar de comida altamente calórica. A noite é a sensação de impunidade a pensamentos maus, às vezes horriveis, sobre os outros mas sobretudo sobre nós próprios. 

 

Como tudo na vida, deve ser com moderação, e na dose certa a noite é encantadora, misteriosa, romantica e acolhedora. Em excesso, a noite leva-nos para lugares onde não devemos estar, sitios de onde não sabemos conseguir sair, faz-nos mergulhar em angústia e depressão. A noite, que pensamos tão nossa amiga, é matreira e manhosa, faz-nos acreditar em coisas terr´veis sobre os outros mas acima de tudo sobre nós. A noite vivida profundamente não é nossa amiga coisa nenhuma porque nos rouba os dias, deixa-nos refém das horas tardias, troca-nos as voltas, faz de nós zombies que deambulam pelos corredores de casa às escuras e apalpando as paredes em busca sabe-se lá do quê.