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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

16
Out19

Sabem quando o silêncio vira poesia?

Cláudia Matos Silva

Isto quer dizer qualquer coisa como 'devias estar calada'. E todos nós já nos saímos com tiradas infelizes, em que deveriamos ter feito poesia com o nosso silêncio, no entanto preferimos ser engraçados mas em vez disso caimos em desgraça. Aconteceu com a bonita Natacha que apesar de ter nascido algures num desses países de leste que ninguém sabe bem onde fica, já ganhou hábitos de portuguesinha. E foi por isso que me conquistou, a familiaridade que sentia ao ir ao seu mini-mercado, fazia o meu dia um pouco mais feliz. Às vezes era a primeira coisa que fazia depois de acordar e beber o café, rumava ao pequeno mercadinho da Natacha para comprar pão de alfaborra, queijinho alentejano, lacinhos de mel polvilhados com açucar em pó e no fim ainda recebia umas recomendações culinárias sobre como fazer isto ou aquilo. Ficava-me muito mais barato ir ao Pingo Doce ou ao Mini Preço, mas não era a mesma coisa. Não me custava pagar mais porque o sorriso da Natacha e aquele olhar que me abraçava compensava o pequeno rombo na minha pobre carteira.

 

Como eu gostava da doce Natacha, mulher alta, vistosa usando e abusando daquele estilo de make-up anos 80, as unhas de gel sempre aguçadas e coloridas, e os chanatos que não lhe ficavam nada bem, por sorte a maior parte das vezes observava-a apenas da cintura para cima. Não posso por isso afirmar que se havia transformado oficialmente numa portuguesa,  denunciar o típico calcanhar de merceeira; seco e rachado. 

 

Com a confiança a Natacha foi assumindo cada vez mais a sua portugalidade com comentários desnecessário e despropositados. No fundo reproduzia o que ouvia da boca das suas clientes, na maioria senhoras reformadas cheias de dinheiro mas forretas como tudo. A doce Natacha chegou até a comentar o dinheiro que eu trazia na carteira (ou o que não trazia, ao certo nem sei) e eu sorria porque estava enamorada e quando nos apaixonamos pelas pessoas perdoamos tudo, não é?

 

Mas a língua da Natacha não cessava em comentários deselegantes e desapropriados. Então passei a ir menos ao pequeno mercadinho da doce Natacha e rendi-me aos preços do Pingo Doce, com apenas 10 euros consigo a proeza de trazer um saco cheio. Mas se passava à porta do seu estabelecimento sempre comprava uma daquelas iguarias a que ela me habituou, mas tudo acabaria por me amargar devido à falta de tento na língua desta amorosa mulher. Assumi para mim, não volto lá, fica mais caro e saio irritada. Mas na verdade tinha saudade dela e daqueles lacinhos com mel polvilhados com açucar em pó. Que se lixe, vou à Natacha. 

 

Antes mesmo de chegar ao seu mercadinho cruzo-me com ela na rua, sorrio e ao que ela me diz 'tens andado a comer bem, estás mais gorda', e apanhada de surpresa nem tugi nem mugi. Apenas soube que os lacinhos de mel polvilhados com açucar em pó deixaram de ser assim tão bons e que preferi dar meia volta e vir para casa comer pão com ranço. À Natacha não lhe compro nem mais um palito. Mas continuo a achá-la um doce de senhora e que no bairro tem muita gente a quem alegrar os dias com aquele seu jeito de portuguesinha desbocada e pobre de espírito. 

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