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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

22
Jun19

Sabem qual é a milésima primeira maneira de morrer?

Cláudia Matos Silva

 

...isto no seguimento daquele programa parvo que nos faz rir '1000 maneiras de morrer'.

 

Fiquei com a sensação de que estive à beira de descobrir a milésima primeira maneira de bater a bota e só escapei porque algures no infinito o divino deve ter pensado que eu ainda não aprendi uma boa lição. Ao menos quando bater a caçoleta sei que vou partir cheia de conhecimento, uma interioridade ímpar e uma sensibilidade fora de série tudo para partilhar com...as minhocas.

 

Pois bem, um dia como qualquer outro. Desconfio que é assim que a morte se nos apresenta, num dia normal, nenhum 'happening' digno de ficar inscrito na wikipedia e na verdade aquele era só mais um banho mas podia ter sido a derradeira banhada. Se eu pensar bem, ando a brincar com a sorte ao recusar um tapete anti derrapante no poliban. Também não quero ter prateleiras para os productos de higiene o que me obriga a baixar, num espaço que por si já é bastante contiguo. No exacto momento que buscava no fundo do poliban o gel do banho para colocar no puff, sem querer puxo o cabo do choveiro que com a sua respeitosa envergadura bate na minha cabeça. Por sorte com as mãos consegui amortecer a sua queda e evitar esvair-me ali mesmo em sangue, perder o equilibrio, estatelar-me contra o vidro da cabine (que não suportaria a brutalidade do meu peso morto) e cairia no chão da casa de banho ficando ladeada por estilhaços, já cadáver e sem uma toalhita que me tapasse as misérias. Apesar de dramático, se assim fosse, a vida iria parecer um circulo perfeito; assim em pelota e numa sangria tinha vindo ao mundo, e da mesma maneira havia de o deixar.

 

Há no entanto uma questão muito importante. Na série '1000 maneiras de morrer' o individuo que falece parece que está mesmo a pedi-las. Aliás, vemos o programa a esfregar as mãos e com uma certa sede de vingança 'morre desgraçado'. Por instantes aligeira um evento com o qual ainda não lidamos bem, a morte. E sabemos que todos havemos de morrer,  evitamos pensar nisso, e se vemos o programa rimos das maneiras parvas (mas merecidas) com que o divino  presenteou aqueles personagens. Depois do riso, é inevitável que se instale uma certa melancolia, será que eu vou ter uma morte parva? E damos tanta importancia a este aspecto da nossa existencia, que no exacto momento em que deixamos de existir queremos sair em grande.

 

Agora uma história real. Posso chamar-lhe o cucu da discórdia. O velhote que morreu porque levou com o tal relógio de cucu na tola. Uma morte sem jeito nenhum, não é? A família já tinha implorado para deitá-lo fora porque só servia para fazer barulho, acumular pó e transformar a casa num mausoleu bafiento. Aquele cucu iria definir dramaticamente o desenlace desta história real mas será que o senhor pela sua teimoso não estaria mesmo a pedi-las? De acordo com '1000 maneiras de morrer' obviamente.

 

O que só me leva a concluir que cada um de nós está mesmo a pedi-las, só ainda não sabemos quão estúpida será a nossa maneira de morrer.