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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

14
Jan20

Quando vi o arco-iris pela última vez?

Cláudia Matos Silva

 

Faz pouco tempo, mais ou menos pela altura em que encontrei este post do blog UM PÁSSARO SEM POISO da Isa Nascimento. Guardei-o para 2020, sabia que queria muito falar sobre isso. Porque apesar deste lindo arco-iris que vos mostro na foto ser o mais recente, e estar enquadrado numa bela paisagem na Carrasqueira, não foi este o arco-iris que teve mais impacto em mim.

 

Vamos recuar quatro anos. Eu estava por esta hora no sexto piso de um prédio na Rua do Viriato. Parecia um dia como qualquer outro, e embora eu sentisse que as coisas não estavam bem, a minha vontade férrea de não ser derrotada por más energias, fazia de mim uma autistas entre os corredores de gente descontente. Eu também não estava contente mas vesti a pela da tola que nada via, nada ouvia, nada sabia...até ao dia que sou chamada ao quarto piso. É no quarto piso que tudo se decide. É lá que está a melhor máquina de café, é lá que estão os bufos e os que congeminam, é lá que estão os que se julgam 'the special ones' só porque partilham o mesmo piso com o DDMT (dono daquela merda  toda). Ainda vestindo a pela da autistas, fui tranquila ao quarto piso. Na ingenuidade, acreditava que me iam passar a mão pelo pêlo e dizer o quão especial eu era como funcionária; dedicada, incansável e versátil. 

 

Não foi bem isso que aconteceu. Sem saber porquê fui despedida. Houve desculpas esfarrapadas, conversa da treta, um gasto de latim tremendo que eu remato com um 'vamos lá preencher a papelada'. Sou prática e a conversa estava francamente enfastiar-me e eu só queria sair dali para chorar à vontade, nunca daria parte fraca ali dentro. NUNCA! Enquanto ali estive, naquela sala com uma grande carpete e uma mesa de madeira gigante devidamente envernizada, eu e o senhor a quem foi incubido 'o trabalho sujo' de me demitir, sentados num cantinho com uma conversa bizarra. Ele pedia imensas desculpas alegando nada pessoal e eu só dizia 'ó senhor Fernando, está tudo bem'. Não faço ideia quem era o individuo, a primeira e última vez que ouvi falar dele trataram-no por doutor, para mim um doutor é médico, e apesar de efectivamente ele me estar 'a tratar da saúde', reduzi-lhe a condição à de senhor da mercearia....o senhor Fernando. Assim foi até à última assinatura e até ele no desespero da situação dizer 'pronto, um dia secalhar até bebemos um café'. Pois claro, é isso mesmo.

 

Saí da Rua Viriato para nunca mais voltar porque sou assim de cortes radicais. Meti-me no carro, liguei aos meus, que ficaram aterrorizados e eu serena...nem uma lágrima. Estava bloqueada ou aliviada, não sei bem. Naquele dia fui almoçar fora e nem uma lágrima, mas um alivio nos ombros. Pensei, afinal isto não está a ser assim tão mau. É claro que não, o pior estaria para vir. Quando acordasse e me visse sem chão. A minha profissão de sempre já não era, a única coisa que sabia fazer, já não podia fazer. Então e agora? Nessa altura surge do nada um bonito arco-iris no ceu azul que atravessava Almada. Senti-me criança outra vez, como se fosse o primeiro arco-iris que tivesse visto. A verdade é que talvez pela primeira vez me tivesse permitido vê-lo, não só a ele, mas  tantas outras belezas que a natureza nos dá de mão beijada. Passei a apreciar flores, até fotografá-las, passei a colectar bonitas conchas na praia e a contemplar as copas das árvores. Sigo o voo dos pombos, que fazem uma bonita dança nos ceus, conduzidos por um som que não consigo descodificar.

 

 

E se o meu post terminasse desta forma, podia dizer-vos que estavamos perante um happy ending. Mas quatro anos depois de ter sido impedida de fazer a única coisa que sei fazer continuo a perguntar-me, então e agora? Não sei mesmo o que fazer! Sinto-me perdida, desalentada, com vontade de adormecer e não voltar a acordar. Mas tenho acordado sempre e enquanto assim for tenho de me obrigar a viver e às vezes é tão dificil. Por isso, um dia de cada vez, criando pequenos objectivos diários. Não há segredo nenhum. É como andar. Temos de colocar um pé em frente do outro, seguir em frente e com sorte ainda encontro mais um bonito arco-iris.

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