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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

07
Jun19

Quando é que comecei a gostar de lavanda?

Cláudia Matos Silva

Há 1 anos atrás.

 

Até esse momento lavanda era cheiro de gente velha. Uma ideia que me foi transmitida por outras pessoas, um preconceito que ficou na minha memória, porém nunca chegou a ser uma lembrança olfactiva. Os cheiros levam-me quase sempre à infância, uma altura em que todo o e qualquer aroma é uma novidade, e por isso o cérebro o registava com prontidão, catalogando-o imediatamente para que constasse para sempre na nossa base de dados emocional. Não tenho qualquer memória do cheiro de lavanda, como se toda a lavanda do mundo tivesse fugido de mim durante 41 anos até que o encontro se dá numa bonita tarde de verão no quintal do meu pai. 

 

Um cheiro que ladeava a casa e captou a minha atenção, ele apontou para aquele aglomerado de ervas já altas, pequenos e bonitos botões roxos a que talvez se possa chamar de flor, a flor de lavanda. Para quem não presta atenção às questões do campo pensar numa flor é perspectivar a grandeza de uma rosa, onde pode também morar a subtileza quer nas cores e formas. Uma flor tem de ser espantosa qual orquídea; com folhas e folhos, pequenas e grandes pétalas, cores vibrantes que se espraiam nas suas formas arredondadas. Uma flor é uma riqueza para os nossos olhos mas a lavanda, só por si é uma pobreza, pensei e insisto em chamá-la de erva.

As abelhas faziam um autêntico festim em torno da lavando do meu pai. Atrevi-me a tirar apenas uma e levei-a para dentro de casa enquanto comecei a dar às agulhas de crochet. Havia um cheiro nada súbtil que me atravessava as narinas e me intrigava. Que cheiro seria aquele? Então é a lavanda diz o meu pai enfaticamente. E lá estava em cima do braço do sofá a erva que havia colhido com folha de lavanda (e a que não dei qualquer atenção), as suas cores misturavam-se com o tecido do sofá e mal se via, mas a boa da lavanda quis dar-me uma lição, e se cheirava bem, a marota. Apenas uma pequena folha que colhi, nem sei porquê e que ali ficou esquecida ao meu lado, enquanto freneticamente crochetava pequenas flores com fios de várias cores. 

 

A sensação que tenho é que de há uns anos para cá a minha base de dados de memórias olfactivas ficou parada nos 12 anos de idade. Como se mais cheiro algum me pudesse despertar lembranças boas, como se depois disso todos os cheiros se tornassem num amontoado de fedores, uns melhores outros piores, nada assinalável para me regalar. Tenho a certeza de que aos 41 anos o meu cérebro registou, como há muito não fazia, a entrada de um novo aroma associado a uma boa memória. Lavanda, cheiro de gente velha só porque ouvi alguém dizer, será o cheiro que lembra o meu núcleo duro feliz, na casa de campo, num fim de tarde de verão algures em 2018. Quando for bem velhinha espero que a memória me traga sempre esta imagem de harmonia sempre que o cheiro de lavanda perfumar o ar. E nessa altura vou dizer para os meus botões, cheiro de velho o tanas!