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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

14
Jun19

Qual o sentido da vida?

Cláudia Matos Silva

 

Ah ah, apanhados! Carregaram no link por causa do titulo! Com que então são vocês que tornam os livros de auto-ajuda em best-sellers! Shame on you:) 

 

Pois, eu só não sei o sentido da vida como este post não faz sentido nenhum, mas cá vai, na esperança de que vocês, os leitores da Alexandra Solnado (afinal ela diz falar com deus) me ajudem a perceber o que é isto que andamos todos para aqui a fazer. Dizem que é viver mas não me parece.

 

As minhas reflecções mais profundas acontecem em sitios inusitados, a última (nunca sabemos realmente quando é a última, pois não?!) foi na caixa do Pingo Doce. É um dos locais onde menos gosto de fazer compras mas face à concorrencia os preços não me dão alternativa. Mesmo que a clientela adore passear os carrinhos pelos corredores tão ou mais apertados que as roupas dos próprios funcionários, refilando lá vou às compras trazendo um saco cheio por pouco mais de 10 euros. Quase sempre saio de lá com o saco ao ombro e a pensar como raio consegui trazer tanta coisa por tão pouco. Naquele instante, deixando para trás os velhotes que atravancam os corredores em pequenas discussões familiares, sinto-me uma perita em compras para o lar, a rainha da poupança ou somente uma forreta do caraças.

 

Levo um estilo de vida, como dizer, 'free-style', tipo faço o que me dá na real gana. Não sei por quanto tempo poderei levar esta vida mas por agora é assim e nem sempre me sinto contente por isso. E não nego, às vezes penso, que tal enviar uma candidatura espontânea para o grupo Pingo Doce? Segundos após, concluo, trabalhar no Pingo Doce não iria certamente preencher o vazio que sinto na minha vida. Verdade seja dita, não sei o que poderá colmatar este meu descontentamento pela vida em si mesma. Vou tentar explicar-vos o que até para mim é inexplicável, é como se alguém me tivesse vendido a ideia de que viver é uma coisa fantástica e no final das contas me tenha sentido enganada. Então é isto a vida? - penso.

 

No meio deste meu pessimismo há sempre o humor, tal como acredito sofrer de angústia crónica, também estou convencida de que sofro de uma outra patologia, estupidez aguda, mas com essa eu vivo bem. Diria até que é esta estupidez que me anima e me leva a alimentar alguns projectos na blogosfera (e o meu canal no youtube).

 

O facto que vou partilhar podia (e devia) fazer parte da minha lista de histórias a contar em tardes quentes de verão a um núcleo restrito de pessoas que gostam de rir a bom rir. O problema é que a história até pode ser engraçada mas não me caiu em graça.

 

Ora, mais um dia e lá estava eu na fila do Pingo Doce pensando no existencialismo 'ser ou não ser, eis a questão', pera isto é Shakespeare. Voltando, será que devia mandar a tal candidatura espontânea para o Pingo Doce? Não, não, não, repeti como um mantra pra mim própria, olhando à minha volta e lamentando a sorte de quem trabalha numa superficie comercial, a cadeia pouco importa; jumbo, lidl, mini-preço, continente. São todas iguais e geralmente quem ali entra na esperança de ser apenas por uns tempos, até arranjar algo melhor, ficará preso para sempre e a definhar de tristeza. O que parecia uma amigável promessa de emprego estável, revelou-se numa armadilha. 

 

Continuava na fila para ser atendida, e começo a aproximar-me da robusta operadora. Meia idade, despachada, cabelo muito encaracolado e aloirado. O que veria ao aproximar-me dela, deixaria as minhas órbitas efectivamente em órbita. Não, não eram unhas de gel pindéricas a precisar de manutenção urgente, nem aquela falta de dentes a descoberto quando o sorriso é desbragado, sequer as pestanas postiças a desmoronarem deixando pelinho a pelinho cair em cima das maçãs do rosto, ou o eyeliner preto esborratado a denunciar um dia de calor. Nada disso.

 

 

Quando estou na fila e começo a colocar as compras no tapete sinto-me embaraçada, com receio que notem o tipo de productos que adquiro. Enlatados, chocolates, bolachas, batatas fritas e areia para os gatos. Costuma ser isto, mais chocolate, menos pacote de bolachas, compras de mulher despreocupada com as lides caseiras, uma não fada do lar, obviamente. Nesse dia, nem sei o que pousei no tapete rolante porque mal alcancei a operadora de caixa os meus olhos focaram a camisa que vestia. Uma camisa com pins e pendurezas e claramente apertada. Eu não sei quem estaria em maior sufoco, se a camisa cujos botões a esgaçar pediam socorrooooo ou se a própria rapariga que mal se conseguia mover. Eu acredito que naquele momento a camisa estava objectivamente em apuros porque a operadora continuava a passar energicamente os códigos de barras dos productos, sorridente, olhando-nos no rosto enquanto, o seu soutien cor de pele dizia 'cu cu, estou aqui' para quem o quisesse ver. Os seus braços gorduchos estavam prensados pelo tecido rígido da camisa e também o estômago ameaçava rebentar com os botões ao nível do perímetro abdominal.

 

Por mais que olhasse em volta e visse cartazes dos productos super frescos do Pingo Doce, dos seus preços imbatíveis, de como gostam de receber os clientes (de janeiro a janeiro) e de como a equipa vasta e incansável adora o seu ofício, eu tive a certeza de que aquela mulher já não iria mais sair dali. Daqui a 10 anos aposto que lá estará alegremente a passar os códigos de barras dos productos e espero que mantenha a mesma genica e o mesmo sorriso mas tenham a dignidade de lhe oferecer uma camisa nova. Porque se a vida como a vivemos não faz sentido nenhum, ao menos  possamos encher o peito de ar, respirar fundo e ganhar energias para um novo dia. Esta mulher nem a esse luxo se pode dar,  correndo o sério risco de lhe saltar um botão e vazar a vista a um cliente. Isto não faz sentido nenhum, é só o que vos tenho a dizer.

 

FIM.