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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

04
Mar20

Qual foi o último livro que li?

Cláudia Matos Silva

«Snu e a vida privada com Sá carneiro» escrito pela Cândida Pinto e que apesar de ser um livro de 2011, estava em destaque na biblioteca do Seixal. O estilo biográfico é definitivamente o meu favorito e por isso não resisti. Já antes tinha lido a história de um homem de confiança de Salazar que deixou o país, o regime e a família por uma americana com pinta de modelo, e não iria resistir a esta história que também ela é uma pedrada no charco. Uma história em que o amor parece vencer no fim, contra tudo e contra todos.

 

Em termos pessoais, não creio que Snu e Sá Carneiro fossem pessoas da minha simpatia, mas uma coisa é certa, foram figuras que marcaram o Portugal em final de ditadura e inicio de uma democracia ainda meio coxa e dizem os entendidos que nunca se chegou a endireitar. Eu de política nada entendo mas rendo-me a uma boa história de amor. 

 

Snu e Sá Carneiro seriam à primeira vista um casal absolutamente improvável.  Snu uma dinamarquesa filha de uma elite ligada às letras, uma mulher inteligente, perspicáz, que estudou nas melhores escolas e que fez de Portugal a sua pátria. Sá Carneiro nascido no Porto, numa família ultra conservadora e religiosa. O que atraiu estes dois? Talvez as circunstancias, ela estava desencantada com a pobreza de Portugal e ele estava convencido que ia mudar isso, ingressando na política e deixando para trás a advocacia. Snu lutava pela democracia através da editora que criou, Dom Quixote, Sá Carneiro lutou por ideias novas mas não revolucionárias através do partido que hoje conhecemos como PSD.

 

Ambos eram lideres, cada qual na sua área, e ambos adoravam pessoas com personalidades fortes e rectas. E aqui se encontram no amor por Portugal que os une mas por perceberem que juntos seriam mais fortes, apesar da sociedade portuguesa condenar e inclusive a igreja. A mulher de Sá Carneiro nunca lhe deu o divórcio mas mesmo assim e para todos os efeitos era Snu que o acompanhava para todo o lado e nunca negou que era ela a sua verdadeira companheira.

 

Podia dizer-se que o amor deles acabou em jeito de tragédia grega, num lamentável acidente que segundo apura a jornalista Cândida Pinto, o pequeno avião causador da morte de todos os tripulantes (Snu e Francisco incluidos) já há muito dava sinais de não estar em condições. Houve teimosia da parte do casal que tinha planeado mais uma viagem política (mesmo atrasados não quiseram deixar de a fazer) porque acreditavam que todos os esforços valiam a pena para mudar o Portugal do pequeninos. Nunca chegaram a ver as voltas que Portugal deu mas o nome deles ainda hoje é falado por uma geração que os conheceu e que tem deles a imagem de um casal invencível, cumplice e apaixonado.