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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

24
Jun19

Porque é tão difícil deitar coisas fora?

Cláudia Matos Silva

Destralhar, o termo ouvi-o pela primeira vez com a Sofia Mogado no seu canal Ideias de trazer por casa e pensei que a própria tivesse inventado a palavra, que considero divertida. Destralhe, lembra-me tralho, ou o que os putos da rua dizem quando alguém se esbardalha ao comprido. Ouvi muitas vezes, 'heyyy ganda tralho'. Cá para mim, que não percebo nada de organização, o termo ganhou um outro significado, ora se tralho é cair, destralho é como se tivessemos a capacidade de apagar aquela queda aparatosa, voltar tudo atrás, como nos filmes fazer rewind e puxar a fita atrás....des...tralho.

 

Como bem sabem as adeptas do minimalismo, a minha leitura não faz qualquer sentido, mas nas artes da arrumação eu tralho (caio) sempre nos mesmos erros, apesar de prometer que um dia vou ser uma pessoa organizada e que tudo terá o seu sitio. Mas basta alguém colocar uma chávena de café suja em cima da mesa da sala, parece que todo o mundo ganha legitimidade para fazer daquelas mesinha uma lixeira e logo se acumulam outras chávenas, guardanapos, copos, cenetas, agulhas de croché e o diabo a sete. E se passarmos este exemplo da mesinha da sala para o resto da casa, o que se adivinha é a balburdia. 

 

A Sofia dizia num dos seus videos de destralhe que um dos seus problemas era ver demasiado potencial em todas as coisas. Mas essa visão do mundo é algo muito dela, e por isso gosto tanto de acompanhar o seu trabalho, onde se espelha 'the bright side of life', só ainda não a ouvi assobiar como os Monty Python. No meu caso, não sei se me custa largar os objectivo porque lhes vejo potencial, acho que nem penso muito nisso. O que me ocorre é que há uma história da minha vida ligada àquele objecto e deitá-lo fora é como se estivesse a desfazer-me da minha própria memória. Se em alguns casos dolorosos, urge destralhar a memória, o cérebro tem-me tratado bem e usando um mecanismo de auto-defesa (ou auto-limpeza) livra-me do passado que não importa. Então se aquele objecto que tenho em mãos, sem saber ainda se deve voltar para a prateleira ou seguir directamente para o lixo, me leva a um sitio onde fui tão feliz como separar-me dele, sem que isso me seja fisicamente doloroso?

 

Estou longe de ser acumuladora, bem pelo contrário. Tenho fúrias e às vezes pego em resmas de coisas (sem saber exactamente o que lá está) e meto tudo no caixote. O caso mais triste foi quando me desfiz de todas as minhas fotos de infância ( e eu já tinha tão poucas e ficaria sem nenhuma), mas alguém iria reverter o final desta história. O meu pai tem o péssimo hábito de inspecionar o lixo, isso irrita-me porque parte da nossa intimidade fica lá, no meio daquele amontoado de coisas e não queremos que ninguém veja. E lá vai o senhor meu pai enfiar o nariz no que não lhe pertence, e em boa hora o fez, porque salvou todas as fotos e se ainda hoje as conservo é graças À sua bisbilhotice. Serviu-me de lição, jurei conter-me em momentos de fúria, e assegurar que só vai fora o que deve mesmo ir. O problema é decidir o que deve ir!

 

De alguma forma gostaria de assegurar que alguns objectos com potencial pudessem ter uma segunda vida nas mãos de alguém que os valorizasse. Já tentei nos stories do instagram mostrar alguns e oferecê-los mas não foi productivo e porquê? Porque o mundo inteiro debate-se com o mesmo problemas. Temos demasiadas coisas, a maior parte delas inúteis, e agarramo-nos a elas porque não temos mais nada. Sentimo-nos vazios, tristes, desalentados, perdemos a fé e sobretudo deixamos de acreditar nos outros e mais grave, em nós. É por isso que aquela estrelinha led que só serve para ganhar pó ainda lá está junto à cama. É a minha estrela guia que às vezes me faz espirrar porque os pêlos de gato têm o dom de se entranhar em tudo. 

 

Já tenho um saco preto enorme cheio de coisas, muitas coisas, objectos que tive coragem de me desfazer. Uma separação de comum acordo. Que esses tarecos encontrem a felicidade noutro local e que eu consigo viver por fim num sitio desafogado. E que a memória nunca me falhe para recordar a minha história e que sorria pelo que vivi e não pelos objectos que acumulei. 

 

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