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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

12
Jun19

Porque decidi ver 'Bandidos na TV'?

Cláudia Matos Silva

Eu pelo-me por criminologia, é verdade, mas o que vem do Brasil não me desperta qualquer interesse. E isso explica-se pela natureza de um povo (arrisco a generalização) exuberante, na alegria e na tristeza, no amor e no ódio. Em alguns casos as pessoas fazem o mal com tanta leviandade porque não conhecem outro modo de agir. Quando se diz que o mundo é uma selva,  em alguns países da américa-latina, essas palavras são levadas à letra. Na maioria dos casos não acredito tratar-se de psicopatia ou sociopatia mas questões educacionais. Num mundo em que todos precisam safar-se não há espaço para ser aquele gajo porreiro e com base em toda uma cultura do 'salve-se quem puder' ou 'vale tudo até arrancar olhos', o tipo de crimes que costumam vir do Brasil não me instigam curiosidade. É sobrevivencia pura. 

 

Então porque mesmo assim insisti em ver 'Bandidos na TV'? Em primeiro porque tem a marca Netflix e para quem gosta do estilo documental, esta cadeia está cada vez mais forte nesse género. Posso dizer-vos que vi quase de uma assentada os seguintes documentários.

...podia referir o documentário sobre o desaparecimento da Maddie, que vi avidamente mas com uma certa irritação, por ser claramente um projecto patrocinado pelos defensores da família Mccann.

 

Voltando aos 'Bandidos na TV', porque despertou realmente o meu interesse? Wallace Souza foi o homem que me fez correr atrás e perceber que não se trata apenas de um caso de sobrevivência mas de pura manipulação, e isso interessa-me e muito. Wallace Souza é claramente um sociopata e como tal conseguiu gerar à sua volta uma onda de otimismo porque seria ele o salvador, o homem que iria acabar com o crime no estado do Amazonas. Um antigo polícia, com um ódio visceral por traficantes de droga que fez da sua causa, algo pública, ao conduzir um programa na tv 'Canal Livre' onde denunciava todos os criminosos, dos mais pequenos aos maiores, em nome da estabilidade e segurança do povo de Manaus. Um excelente orador, um homem feito para apelar ao coração das massas, dedicado à família e à sua comunidade, resolve candidatar-se a deputado estadual e devido à sua popularidade é eleito três vezes com números expressivos. 

 

E a história não seria fascinante se tudo isto que acabei de escrever não passasse de uma farsa. Wallace Souza era líder de uma guerrilha que implantava o medo nas ruas, provocando os próprios crimes para depois os relatar em primeira mão no seu programa, de gosto muito duvidoso (CMTV estás perdoada) e ainda sair em braços como herói, pois tratava-se do único homem capaz de pôr termo a um caos de crescente violência. São cerca de 7 episódios com informações e declarações contraditórias. Se vos interessa perceber qual a extensão da maldade de Wallace Souza, talvez nem mereça perderem tempo a ver esta série porque é algo que nunca ninguém saberá. O próprio negou toda e qualquer acusação de que foi alvo, faleceu em 2010 devido a doença prolongada, e a sua família está empenhada em defender o seu bom nome. 

 

'Bandidos na TV' merece a pena pela quantidade de equívocos, mentiras, casos e descasos, do diz e dediz. Nada é o que parece, ninguém é quem diz ser, a verdade anda algures pelas ruas da amargura e ninguém consegue descobri-la. Compreendemos que no mundo da política todos têm telhados de vidro e mesmo assim insistem em atirar, uns aos outros, pedras de grande envergadura. Quem é atingido pelos estilhaços? Todos os que em torno querem paz, justiça e tranquilidade, num país que é cada vez mais um caso perdido. 

 

Durante os 7 episódios assistimos a um estado inteiro, em estado de sitio, com a taxa de crinminalidade a atingir números assustadores e com o aumento considerável nos últimos anos, incluindo motins na cadeia com dezenas de mortos. Diria que já poucos restam para contar esta história. A maioria morreu com um balázio certeiro, e os que ainda resistem têm o destino traçado, um tiro que lhes está reservado e ao qual não poderão escapar.

 

Será que podemos ter esperança numa nova geração? A resposta é categórica, não. As memórias que se encavalitam no seu imaginário de criança são de guerrilha, luta pelo poder nas ruas, a lei do mais forte, tomar o caminho mais rápido para chegar ao topo, ser escorregadio, manhoso, mais esperto que todos os outros. O Brasil vive disso, de esperteza saloia, e os mais jovens que poderiam ser uma esperança para o futuro acreditam somente no que viram toda a vida, e que se entranha nos seus tecidos, no seu ADN. A violencia é o único caminho a seguir.