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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

10
Dez19

O que sentimos quando perdemos um ídolo de adolescência?

Cláudia Matos Silva

Não sei explicar por palavras mas é como se mais um pedaço da minha adolescência se perdesse. Mesmo continuando a criar playlists com sucessos dos 80s no spotify, não há como fugir ao facto de que hoje sou uma mulher de 42 anos, e não a adolescente sonhadora que delirava com os telediscos que passavam no TOP+. Aliás o TOP+ é reflexo de como a música chegava a Portugal, assim meio a pontapé, o programa era péssimo mas só através dele conseguiamos vislumbrar alguns dos nossos ídolos. De resto, MTV só para quem tinha parabólica.

 

Hoje ainda a despertar leio que morreu a vocalista dos Roxette, para mim é como se os próprios Roxette tivessem morrido porque toda a gente sabe que apesar da banda ser uma dupla, Marie e Per, e de Per ser assumidamente o grande motor criativo, era Marie que todos nós amavamos. Marie era o sol que brilhava na voz e no corpo. Uma loira feia, magrinha e sem formas, cabelo curto, loiro platinado mas usando de um penteado pouco lisonjeiro, já para não falar das duas favolas bem separados (conhecido fenómeno 'dentes à mentiroso') que nunca corrigiu. Não se podia dizer que gostavamos dela pelos seus lindos olhos, porque era uma brasa e linda de morrer. Tinha no entanto uma sensualidade indiscutivel, notem como beleza e sensualidade são coisas tão diferentes e que muitas vezes são confundidas. Isto dava outro post.

 

Eu tenho todos os cds dos Roxette, pelo menos até ao 'best of' onde claramente há uma separação de águas. Até à compilação da dupla é 'cool' gostar de Roxette, após a edição desse disco de singles orelhudos, o público adolescente já armado em adulto começa a curtir um certo indie que andava a fazer estragos no top de vendas. Eu não fui diferente e para trás deixei os discos dos Roxette, apesar de os continuar a guardar com carinho, e lhes agradecer o facto de ter aprendido inglês mais depressa de tanto ler as letras que vinham nos livretes. Já agora, Luísa, nunca me chegaste a devolver o livrete do 'Crash Boom Bang'!!!

 

Os Roxette fazem parte da trilogia sueca que tomou o mundo tipo vendaval. Houve os ABBA, mais tarde os ACE OF BASE e por fim ROXETTE (a ordem não está propriamente correcta porque os ace of base já são um producto dos 90s). Todos com o mesmo talento para fazer música fácil de gostar, música que gostamos de gostar e que nos faz sentir bem. É até de estranhar, tendo em conta que nos países nórdicos, pela falta de sol, a malta tende a ser deprimida crónica. Apesar dos Ace of Base terem-me apanhado numa fase mais premente da minha adolescencia (por premente quer dizer mesmo DEprimente), os Roxette eram os meus eleitos pela consistencia, diversidade, pela química da dupla e pela Marie.  

 

Mais tarde soube que Marie estava doente, do tratamento ficaram sequelas severas, mas ainda chegou a fazer uma última tour, quase sempre sentada e cantando os hinos com o apoio incessante dos fans e a colaboração de uma banda que nunca a deixou ficar mal. Para mim era uma morte anunciada, vi Marie frágil, uma sombra do que conheci mas admirei-lhe a coragem de se apresentar num outro estado da sua vida, sabendo que não teria muitos mais anos de vida. Marie continuava o sol, mas em vez de estar no topo, a brilhar às 3 da tarde, sentia-se a calmia de final de tarde, um sol que se escondia para regressar no dia seguinte. Apesar de nos ter deixado aos  61 anos o sol dela vai continuar a brilhar de cada vez que a ouvirmos na rádio. É certo, vamos levantar o som do rádio, desafinar até dizer chega, e por três minutos e tal permitirmo-nos ser adolescentes de novo. 

 

Respondendo à minha própria pergunta 'o que sentimos quando perdemos um ídolo de adolescência?', humm...mesmo sabendo que nada dura para sempre,  não podemos nunca deixar que essa adolescente parta de vez. E há que manter firmeza em recuperá-la de quando em vez quando revemos um filme do John Hughes, um teledisco dos A-HA ou toca na rádio uma música dos ROXETTE. As coisas não voltam a ser como dantes mas é bom lembrar que passamos por elas e que hoje estamos aqui.

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