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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

16
Jun19

A percepção é mesmo a realidade?

Cláudia Matos Silva

 

Eu tinha uma ideia mais ou menos superficial do real significado desta frase mas creio que finalmente consegui relacioná-la com factos reais da minha vida. E é isso que vou partilhar. Vamos lá...

 

A percepção é a realidade.

 

Sabem aquelas pessoas que dizem saudosas 'ó tempo volta para trás' ou observam crianças a brincar no parque e lembram com ternura as suas próprias infâncias? Eu não sou uma dessas pessoas. Suspirei de alivio quando cheguei à idade adulta e pude começar a decidir, coisas simples; se vou de metro ou autocarro, opto por ciências ou artes, quero ser puritana, vádia ou ambas. Lembro-me do exacto momento em que realizei na minha cabeça que tinha chegado a adulta e que já não seria forçada a estar com amigos escolhidos, por sabe-se lá quem, baseados apenas num denominador comum, a idade. Uma coisa que sempre me incomodou, pegarem na maralha que tem mais ou menos a mesma idade 'vá agora entendam-se, brinquem, sejam crianças'. A questão é eu não queria ser criança e forçarem-me a brincar só porque sim era um tormento.

 

 

Tenho no entanto, ou deverei reformular, tinha duas excelentes memórias, que salvavam a honra da minha infância e da minha adolescencia. Afinal havia episódios memoráveis, maravilhosos e que em horas de ternura ou partilha de pedaços felizes da vida passada, falaria (e apesar de tudo continuarei a falar) inevitavelmente destas duas pessoas, a Fernanda e o Carlos. Vamos por partes.

 

A Fernada. Ela e a sua avó Norberta salvaram a minha infância de ser um período absolutamente horrivel. Quero relembrar, pelo termo horrivel, entendam que eu era uma criança que não queria ser criança, portanto nada mais há assinalar que este facto.

 

A Fernanda tinha uns grandes olhos azuis, como os da avó, tinha um sorriso largo, os dentes branquinhos e umas gengivas muito salientes. Adorei ser criança com ela. Era uma miúda que provinha de uma classe média (na escala social eu estava uns furinhos abaixo) e ela dava-me a conhecer pequenas coisas que não entravam na minha casa como boa música pop dos anos 70. Coisas simples como o gira-discos dos avós, a colecção de discos  do pai, e esse pequeno detalhe fazia-me sentir especial e adulta, porque eu estava a ouvir música de gente crescida como por exemplo Brian Ferry e Roxy Music. Ainda hoje 'more than this' é um hino à minha infância com a Fernanda e por isso guardei as melhores recordações para além das fotografias e cartas. E apesar de nos termos afastado tentei voltar ao contacto. Mas não estava fácil, o universo não estava a nosso favor, mas o que vim a descobrir é que a Fernanda não queria ter nada a ver comigo. As lembranças boas que ficaram comigo, eram paradoxais às dela e na sua perspectiva toda a infância, mesmo os momentos passados comigo, eram para ser mortos e enterrados. Soube que não era nada pessoal, menos mau, mas que não queria réstia de memórias desse período. Cortou relações com quase toda a família e emigrou para a amazónia onde é professora universitária. 

 

O Carlos. É o que guardo, ou deverei dizer, guardava, de melhor daquele periodo crítico na vida de qualquer pessoa, a adolescencia. Eu não conseguia fazer amizades de verdade, encaixar em grupo algum, mas ao menos lá ia tirando notas decentes, pelo que nem tudo era assim tão mau. Lembro-me num exercício de grupo, a professora de português pediu para que a turma se organizasse por grupos. Eu e outra pessoa ficamos sem grupo, estavamos ali à espera que alguém nos escolhesse, para uma adolescente de 14/15 anos aquilo é de uma crueldade sem dó. Lembro-me de uma miúda comentar 'aqueles são os restos, os que ninguém quer'. Ela tinha toda a razão na sua apreciação, e  sei foi sem maldade, mas eu tinha descido o mais baixo na hierarquia escolar. Até que o Carlos se abeirou e quase como um herói, o meu principe gadelhudo e que ouvia heavy metal, assegurou que comigo faria um grupo e que seriamos só os dois. Pronto nunca mais esqueci este gesto (que considero extremamente romantico) e talvez por isso pouco mais tarde me tenha apaixonado completamente. Mas antes disso houve gratidão e amizade que ainda hoje mantenho. Se a minha adolescencia não é aquele perído a arrancar totalmente da memória é graças a pessoas do bem que conheci, o Carlos ocupa o primeiro lugar. 

 

Nos amores a coisa entre mim e o Carlos não correram de feição. O problema é que eu era timida e ele também, e andavamos desencontrados, quando eu estava com vontade de arriscar ele desaparecia de cena e vice versa. Entendi essa relação como de amizade, acima de tudo,  se nunca rolou amor é porque não tinha de ser. Não guardo qualquer mágo ou angústia, nem sequer considero um caso inacabado.

 

Uma coisa era certa, nutria por ele um imenso carinho e muitas vezes tentava procurá-lo nas redes sociais para retomar o contacto. Acontece que vi-o ontem e para meu espanto não senti absolutamente nada. O Carlos casou, tem uma filha e está transformado num homem de meia idade a ficar careca, opado e com falta de visão. Não seria de todo o homem que me encheria as medidas, mas não era disso que se tratava mas em nome de um passado que partilhamos e uma convivencia tão genuina, queria dar-lhe um beijinho, conhecer a familia dele, apresentar-lhe o meu companheiro e dizer que tinha gostado imenso de o rever. Era isso que tinha planeado se um dia tivesse a sorte de o reencontrar. Não foi nada disso que aconteceu. Posso alegar que o Carlos não me viu, não me reconheceu, estava entretido, ou eu própria estou irreconhecível, agora mulher de meia idade, opada, de franjinha mas ao contrário dele, eu não estou com problemas de visão. Apesar de mal perceber que se tratava dele, observei-o curiosa, eu sabia que aquela pessoa não me era totalmente estranha. Vejam bem, reconheci-o pelo andar, caminha da mesma maneira de quando era só um puto xarila; lento, balança o peso do corpo de uma perna para a outra como se caminhar desse imenso trabalho.

 

Tal como a Fernada ele selou o passado, onde eu me encontrava, lá nas catacumbas. Encarei-o tantas vezes, buscando o seu olhar, ainda pensei falar-lhe directamente, aliás o meu parceiro incentivou-me a isso, mas lembrei-me da Fernanda. Quando insisti contacto com ela através do facebook, não hesitou em bloquear-me. Para quê impor-me quando o capítulo está encerrado. Por mais que me custe é preciso respeitar.

 

Claramente a minha percepção de momentos que partilhei com estas duas pessoas são a minha realidade, a que mantenho, intacta, e guardo a sete chaves minha memória. São do melhor que me aconteceu. Então e porque o contrário não é verdade? Porque cada pessoa tem a sua própria percepção da vida; do que  passou, do que querem no presente e do que sonham para o futuro. A percepção é algo tão pessoal e subjectiva que no campo das emoções não há verdade absolutas.

 

Já pensei queimar as cartas que guardei da Fernanda ou  desfazer-me dos poemas que escrevi para o Carlos, mas isso seria forçar toda a minha perspectiva e eu adoro a realidade de os ter tidos aos dois na minha vida. Vou guardá-los no coração e regalar-me com lembranças, pelo menos  enquanto a memória não me falhar. Que bonita é a minha realidade, a que percepciono com a Fernanda a mostrar-me as músicas do Prince e o Carlos a tocar Joe Satriani.

 

Espero que um dia leiam isto.