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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

26
Dez20

O que aprendi este natal?

Cláudia Matos Silva

Na verdade não foi bem uma lição mas um murro no estômago em plena ceia de natal. Confesso que o facto de estar meio anestesiada bebericando um qualquer vinho alentejano retardou a minha reflexão. Na altura ouvi algo que não me caiu lá muito bem mas engoli empurrando com o néctar de baco.

 

Eramos uns quatro à mesa e nem interessa quem. Por mim teria ficado em minha casa a comer pizza congelada do Pingo Doce mas tive de ceder à tal da ceia em família mesmo que achasse que o tempo não é de convivios nem petiscos. Lá ia mais um bocado de tintol que é para as tosses. A conversa ia fluindo agradavelmente, o tema era quase sempre o mesmo, e os presentes iam tricotando teorias. Uns acreditam que estamos no fim da linha, a humanidade está presa por uma unha negra. Para mim a noite não era pra opinar mas emborcar e tentar esquecer. 

 

A conversa lá continuava, sempre bem regada e eu lá ia intercalando entre mais um copo de vinho e outro de água. Fala-se em suicidio. Não sei porque raio o tema veio para a mesa. Tenho demasiada opinião sobre este tema, mas como já vos disse, para mim a noite não era de mandar postas de pescada, antes afinfar no bacalhau. Ouve-se no entanto a voz da sabedoria 'quem se suicida é um cobarde', alguém dá corda a esta barbaridade e ouve-se uma voz irritada 'são uns fracos, não aguentam a pressão'. Eu beberico mais um pouco e deixo escorregar entre dentes ' acho que cada um é dono da sua vida'. Por sorte ninguém me ouviu.

 

No dia seguinte lembro-me desta discussão. E só nessa altura compreendo o perigo daquela conversa em plena ceia de natal. A falta de sensibilidade de quem lança uma bojarda daquelas 'são uns cobardes'. A sexagenária não sabia se tinha à mesa alguém com tendencias suicidas, não mediu o peso das suas palavras, nem sequer as consequencias que poderiam ter. Ainda hoje o tema continua na minha cabeça. A frieza como alguém opina sobre a vontade dos outros e como desvaloriza o sofrimento alheio gela-me os ossos.

 

Neste natal aprendi um pouco mais sobre quem me rodeia e detestei o que vi. No entanto, aprendi a respeitar as opiniões e nem sequer as tentar mudar pois cada qual tem as suas convicções e também não quereria que quisessem mudar as minhas. Aprendi que com a insensibilidade dos outros posso eu bem.