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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

28
Jun19

Sabem quem é o Rocket Man?

Cláudia Matos Silva

Poucos o conhecem como Reginald Dwight, o miúdo gorducho inglês com um extraordinário ouvido para a música, mais tarde reconhecido mundialmente como Elton John. Há muito se falava numa biopic, Justin Timberlake terá manifestado vontade de assumir o papel de Elton John no grande ecran, ficou-se no entanto pelo teledisco 'This train don't stop there anymore' e diga-se que não esteve nada mal.  Para o muito aguardado 'Rocket Man', o filme cujo título é um dos emblemáticos temas do cantor, Taron Egerton foi o actor escolhido para lhe vestir a pele. 

 

Quando Elton John se revelou ao mundo como a maior estrela da pop, o nosso pequeno Portugal ainda vivia em ditadura, mesmo que prestes a cair, ela ter-se-à prolongado para além de 1974, num povo de mentalidade fechada ao mundo e genericamente inculto. Por isso, neste rectangulo meio à deriva no oceano Atlântico, Elton John  só atracou o seu barco com o tema 'Nikita'. Eu diria até que há a fase AN / DN (Antes de Nikita /Depois de Nikita), como um divisor de águas na carreira do músico, acompanhado pelas letras pertinentes, simples e certeiras de Bernie Taupin.  Sem querer fazer 'spoiler' mas para que não vão ao engano, 'Nikita' não é sequer referenciado no filme. Desconfio até que há anos não deve tocar este tema algo embaraçoso, apresenta-se a Portugal com a mais foleira balada de todos os tempos, a que se junta um telediscos que não conseguimos esquecer. E num país 40 anos fechado a sete chaves, invertem-se os valores e desde então  o lema é, tudo o que vem de fora é que é bom. Tão bom que até os velhos do restelo não compreendendo a língua inglesa ficaram deleitados com o tema 'Nikita', cujo clip costumava anteceder o jornal das 8 da noite onde inevitavelmente se falaria da guerra fria. 

 

Se Elton John, apesar de não ser um homem nem bonito nem elegante, foi durante quase duas décadas um dos tipos com mais pinta da pop internacional, depois de 'Nikita' passou a ser alvo de chacote, nomeadamente por estas bandas.  O Punk  emergia em Portugal e repudiava tudo o que cheirasse a producto processado. O que essa malta do punk não sabia é que antes de ser um foleiro do caraças, Elton John tinha feito umas coisas bacanas e até bastante progressistas. Mas como o progresso não queria nada com Portugal, uma vez mais lá andavamos à deriva a ouvir Nelson Ned ou Roberto Carlos nos discos pedidos na rádio, e já era uma sorte.

 

Talvez por tudo isto que acabei de referir 'Rocket Man' não tenha o impacto que teve noutros países onde o jovem e excêntrico Elton arrasou com os tops de vendas e encheu os maiores estádios a nível mundial. A Portugal sabe-se que o músico veio a Vilar De Mouros em 1971, o woodstock à portuguesa, por onde passaram o Variações e a sô dona Amália. Um festival para uma elite hippie (porque só se podia dar ao luxo de ser hippie quem tinha familias endinheiradas) e contactos com o exterior para saber que música estava a bater nas tabelas de venda mundiais. As preocupassões das massas eram outras. Tentavam poupar os seus familiares a uma guerra estúpida. Num país onde ainda se reclamavam as colónias ultramarinas, miúdos morriam diariamente numa luta sem razão e ouvir Elton John não seria certamente uma prioridade.

 

Assistir a 'Rocket Man' é perceber tudo o que Portugal andou a perder durante esses anos loucos do sexo, da droga e do rockn'roll. Porque no ponto em que o filme termina, por volta dos anos 80, quando o artista deixou de vez o consumo de alcool e drogas (segundo o próprio está limpo há quase 30 anos), foi quando ele se introduziu na cultura nacional. Hoje toda a gente conhece o Elton John, aquele cota gorducho que implantou cabelo (ou então usa peruca), caixa de óculos, com dentes de mentiroso e a cantar baladas de elevador. Para a maioria de nós ele é pouco mais que isso. Aquele gajo que fez a canção para a princesa Diana e a banda sonora do 'O rei lei', tanto num e noutro caso fico arrepiada de as ouvir, mas é de pavor. Mas não vou negar, na fase menos 'cool' do Elton John adoro 'I don't wanna go on with you like that',  ' Something about the way you look tonight', 'I want love' e sim, por estranho que pareça eu gosto e muito da música 'Nikita'.

27
Jun19

Será que as moedas de cêntimo não contam como dinheiro?

Cláudia Matos Silva

 

 

Ao que parece no reino dos carcanhois também há quem se considere  mais importante que os outros, uma espécie de hierarquia dos trocos; no topo está a bonita moeda de dois euros lapidada a prateado e dourado, olha com desprezo para aquela moedinha de 1 cêntimo, muito escura, encardida, mal enjeitada, escondida no fundo da carteira e completamente esmigalhada pela base desta pirâmide. Ninguém parece querer aquele cêntimo que arramalha para cá, arramalha para lá mas nunca se misturando com os demais trocos.

 

Se julgamos que os trocos vivem todos felizes em harmonia chacoalhando qual melodia que nos anima os dias, ou uma orgia das nossas pequenas finanças a acontecer mesmo por debaixo do nosso nariz, pois bem nos enganamos. Por exemplo, em alguns estabelecimentos comerciais hostilizam-se os pequenos cêntimos como se os quisessem atirar à fogueira. Talvez se explique porque diabo pequenos lagos artificiais ou estátuas como a de Santo António em Lisboa estão cobertas de moedas miudinhas. Durante anos pensei que fosse por superstição, hoje estou convencida de que é pura descriminação. Para quê ter aquela quinquilharia escura a ocupar espaço na carteira? Atira-se o preto à tola do santo antoninho, não vá o santo desconfiar se a esmola for demais. 

 

O meu pai gosta de fazer mealheiros por fazer digo construir. Usa da sua habilidade e dificuldade em despegar dos objectos em geral, por exemplo uma lata de ervilhas; limpa-a, recicla-a e constroi mealheiros onde coloca todos os dias uma determinada quantia. Há no entanto alguns desses mealheiros que servem apenas para os miseros cêntimos, como se fosse heresia juntá-los aos demais euros. Já para nem falar no mealheiro das notas, essas senhoras donas às vezes mais engelhadas que os meus panos do pó, recusam terminantemente estar juntos daqueles pretinhos que só servem para complicar as contas.

 

Como presente o meu pai gosta de me oferecer os seus mealheiros feitos de latas de salchicha ou caixas de ferrero roché, sempre a rebentar pelas costuras, pesadissimos e cheios de moedas pretinhas. O que parece um tormento, depois de contados tantos centimozinhos, devidamente embalados em molhos, no fim das contas posso ter ali de mão beijada 50 euros ...só em miúdos. É dinheiro, não é? Conta como todas as outras moedas e notas, ou não?! Então porque motivo quando me apresento com a carteira cheia de pretinhos tenho a sensação de que aos olhos  dos outros o meu dinheiro cheira mal? As empregadas dos hipermercados ficam irritadas e não escondem; respiram fundo, algumas atiram com os cotovelos para cima da bancada como quem diz 'isto ainda vai levar muito tempo', outras parece que ficam amedrontadas como se o facto de terem de conferir aqueles trocos fosse revelar a triste verdade, elas não sabem contar.

 

Vou tentando por isso desfazer-me dos cêntimos faseadamente, não atiro com muitos ao mesmo tempo para cima do balcão porque não quero o funcionário à beira de um fanico nervoso. Da última vez, ao pagar dois cafés, perguntei se preferia aqueles pretinhos ou uma só moeda, visto que podia dar jeito para fazer trocos. 'Ah não, não...não quero moedas dessas porque só me trazem problemas' - disse a simpática senhora. Tentei perceber o que se passou, até porque o seu sorriso adivinhava predisposição para a interação. Contou-me que num dia em que tinha a caixa registadora cheia dessas moedinhas, uma senhora pagou um café com uma nota de 5 euros e como troco recebeu aqueles cêntimozinhos todos. O que não foi de bom tom, de acordo com a cliente, muito ofendida por só terem aquelas moedinhas, as tais que parecem encardidas, coitadas.  A funcionária confirmou-me uma tamanha discussão porque a cliente não queria aceitar as moedas. Recusava andar com aquilo na carteira e argumentava até falta de educação por lhe dar o troco naqueles moldes. Como se não bastasse foi ainda para as redes sociais divulgar a situação com modos de altivez.

 

É por estas e por outros que me parece que o mundo anda todo ao contrário. Consumidos pelo egoismo e individualismo somos incapazes de nos colocarmos no lugar do outro e perceber que numa situação há sempre várias perspectivas e diz o bom senso que devemos tentar perceber o que sente o outro para uma melhor comunicação. No meio desta confusão, eu só me consigo meter no lugar da moeda de 1 cêntimo, a que ninguém quer. Mas vos garanto que se fosse uma pequenita moeda de cêntimo havia de andar escondida numa qualquer dobra da carteira e um dia alguém precisaria de mim. E nessa altura, eu a pobre e encardida moeda escondida , iria fazer-me de parva, e não aparecia. O dono da carteira já na fila do estabelecimento comercial continuava a escarafunchar a carteira jurando que tinha uma moeda de 1 cêntimo, a fila atrás de si começava a crescer e as pessoas impacientavam-se. A puta da moeda não aparece, e o dono da carteira já duvidava da sua própria sanidade. Secalhar não tinha a tal moeda ou então já a gastou, ou perdeu-a.  Bom, para resumir puxa do cartão de multinanco porque só tinha 3.43 e a despesa era de 3.44. Onde raio se meteu a moeda de cêntimo amaldiço-a ainda a matutar, enquanto puxa pelo cartão de multibanco. Só se aceitam pagamentos de multibanco acima dos 5 euros, avisa a operadora. Não há nada a fazer. A compra tem de ser abortada. Mas para consolar o cliente a funcionaria simulando simpatia termina 'tem uma caixa de multibanco lá fora, devem ser uns 5 minutos a pé, a andar bem'.

 

Depois digam-me que as moedas de cêntimo não contam!!

24
Jun19

Porque é tão difícil deitar coisas fora?

Cláudia Matos Silva

 

Destralhar, o termo ouvi-o pela primeira vez com a Sofia Mogado no seu canal Ideias de trazer por casa e pensei que a própria tivesse inventado a palavra, que considero divertida. Destralhe, lembra-me tralho, ou o que os putos da rua dizem quando alguém se esbardalha ao comprido. Ouvi muitas vezes, 'heyyy ganda tralho'. Cá para mim, que não percebo nada de organização, o termo ganhou um outro significado, ora se tralho é cair, destralho é como se tivessemos a capacidade de apagar aquela queda aparatosa, voltar tudo atrás, como nos filmes fazer rewind e puxar a fita atrás....des...tralho.

 

Como bem sabem as adeptas do minimalismo, a minha leitura não faz qualquer sentido, mas nas artes da arrumação eu tralho (caio) sempre nos mesmos erros, apesar de prometer que um dia vou ser uma pessoa organizada e que tudo terá o seu sitio. Mas basta alguém colocar uma chávena de café suja em cima da mesa da sala, parece que todo o mundo ganha legitimidade para fazer daquelas mesinha uma lixeira e logo se acumulam outras chávenas, guardanapos, copos, cenetas, agulhas de croché e o diabo a sete. E se passarmos este exemplo da mesinha da sala para o resto da casa, o que se adivinha é a balburdia. 

 

A Sofia dizia num dos seus videos de destralhe que um dos seus problemas era ver demasiado potencial em todas as coisas. Mas essa visão do mundo é algo muito dela, e por isso gosto tanto de acompanhar o seu trabalho, onde se espelha 'the bright side of life', só ainda não a ouvi assobiar como os Monty Python. No meu caso, não sei se me custa largar os objectivo porque lhes vejo potencial, acho que nem penso muito nisso. O que me ocorre é que há uma história da minha vida ligada àquele objecto e deitá-lo fora é como se estivesse a desfazer-me da minha própria memória. Se em alguns casos dolorosos, urge destralhar a memória, o cérebro tem-me tratado bem e usando um mecanismo de auto-defesa (ou auto-limpeza) livra-me do passado que não importa. Então se aquele objecto que tenho em mãos, sem saber ainda se deve voltar para a prateleira ou seguir directamente para o lixo, me leva a um sitio onde fui tão feliz como separar-me dele, sem que isso me seja fisicamente doloroso?

 

Estou longe de ser acumuladora, bem pelo contrário. Tenho fúrias e às vezes pego em resmas de coisas (sem saber exactamente o que lá está) e meto tudo no caixote. O caso mais triste foi quando me desfiz de todas as minhas fotos de infância ( e eu já tinha tão poucas e ficaria sem nenhuma), mas alguém iria reverter o final desta história. O meu pai tem o péssimo hábito de inspecionar o lixo, isso irrita-me porque parte da nossa intimidade fica lá, no meio daquele amontoado de coisas e não queremos que ninguém veja. E lá vai o senhor meu pai enfiar o nariz no que não lhe pertence, e em boa hora o fez, porque salvou todas as fotos e se ainda hoje as conservo é graças À sua bisbilhotice. Serviu-me de lição, jurei conter-me em momentos de fúria, e assegurar que só vai fora o que deve mesmo ir. O problema é decidir o que deve ir!

 

De alguma forma gostaria de assegurar que alguns objectos com potencial pudessem ter uma segunda vida nas mãos de alguém que os valorizasse. Já tentei nos stories do instagram mostrar alguns e oferecê-los mas não foi productivo e porquê? Porque o mundo inteiro debate-se com o mesmo problemas. Temos demasiadas coisas, a maior parte delas inúteis, e agarramo-nos a elas porque não temos mais nada. Sentimo-nos vazios, tristes, desalentados, perdemos a fé e sobretudo deixamos de acreditar nos outros e mais grave, em nós. É por isso que aquela estrelinha led que só serve para ganhar pó ainda lá está junto à cama. É a minha estrela guia que às vezes me faz espirrar porque os pêlos de gato têm o dom de se entranhar em tudo. 

 

Já tenho um saco preto enorme cheio de coisas, muitas coisas, objectos que tive coragem de me desfazer. Uma separação de comum acordo. Que esses tarecos encontrem a felicidade noutro local e que eu consigo viver por fim num sitio desafogado. E que a memória nunca me falhe para recordar a minha história e que sorria pelo que vivi e não pelos objectos que acumulei. 

 

23
Jun19

O saco cheio só com 10 euros? Como consegues?

Cláudia Matos Silva

 

A foto é altamente enganadora. Eu não vou às compras com esta pinta toda, nem trago sacos leves e coloridos. Este é o perfil de uma 'shopaólica' e quem vai ao pingo doce com roupa de trazer por casa, leva um saco reciclado à tira-colo e enche-o com mantimentos para uma casa de família não corre o risco de ser chamada de influencer mas sopeira. 

 

E muito me orgulho de conseguir trazer o saco cheio com apenas 10 euros e partilhei há uns dias este facto no post 'Qual o sentido da vida?' e a boa amiga Ana enviou-me uma mensagem de voz pelo instagram a perguntar-me como consigo. Vamos esclarecer, eu consigo porque tenho de conseguir, é mesmo assim e aqui não tem segredo, se só levo 10 euros, é só o que irei gastar. Este truque é essencial para me focar no que realmente necessito e se fugir do 'budget' já viram a vergonha enorme de encarar a operadora da caixa e dizer, afinal mudei de ideias não levo isto e isto, porque não tenho dinheiro. Se a minha vida fosse um filme como por exemplo 'Confissões de uma shopaólica', apareceria um cavalheiro que pagaria gentilmente o resto das minhas compras e num fim ainda me convidava para um café. A isto se chama 'um senhor que nos ajude', há muito quem tenha um, não é o meu caso.

 

Então vou fazer-vos um périplo rápido pelas compras que fiz numa sexta-feira para assegurar o fim de semana, numa casa com 2 pessoas e 2 gatos.

- Meio frango assado - 1.99

- Costeletas de porco - 2.19

- Embalagem de arroz de pato - 2.79

- Meia dúzia de ovos classe L - 0.99

- Bananas - 1.21

- Pão de malta - 0.96

 

É claro que na segunda-feira terei de lá voltar e se começar a incluir productos de higiena para a casa e para a roupa, assim como comida e areia para os gatos, pois não posso levar só 10 euros mas com sorte faço a festa com 20 euros. Desejem-me sorte:) 

22
Jun19

Sabem qual é a milésima primeira maneira de morrer?

Cláudia Matos Silva

 

...isto no seguimento daquele programa parvo que nos faz rir '1000 maneiras de morrer'.

 

Fiquei com a sensação de que estive à beira de descobrir a milésima primeira maneira de bater a bota e só escapei porque algures no infinito o divino deve ter pensado que eu ainda não aprendi uma boa lição. Ao menos quando bater a caçoleta sei que vou partir cheia de conhecimento, uma interioridade ímpar e uma sensibilidade fora de série tudo para partilhar com...as minhocas.

 

Pois bem, um dia como qualquer outro. Desconfio que é assim que a morte se nos apresenta, num dia normal, nenhum 'happening' digno de ficar inscrito na wikipedia e na verdade aquele era só mais um banho mas podia ter sido a derradeira banhada. Se eu pensar bem, ando a brincar com a sorte ao recusar um tapete anti derrapante no poliban. Também não quero ter prateleiras para os productos de higiene o que me obriga a baixar, num espaço que por si já é bastante contiguo. No exacto momento que buscava no fundo do poliban o gel do banho para colocar no puff, sem querer puxo o cabo do choveiro que com a sua respeitosa envergadura bate na minha cabeça. Por sorte com as mãos consegui amortecer a sua queda e evitar esvair-me ali mesmo em sangue, perder o equilibrio, estatelar-me contra o vidro da cabine (que não suportaria a brutalidade do meu peso morto) e cairia no chão da casa de banho ficando ladeada por estilhaços, já cadáver e sem uma toalhita que me tapasse as misérias. Apesar de dramático, se assim fosse, a vida iria parecer um circulo perfeito; assim em pelota e numa sangria tinha vindo ao mundo, e da mesma maneira havia de o deixar.

 

Há no entanto uma questão muito importante. Na série '1000 maneiras de morrer' o individuo que falece parece que está mesmo a pedi-las. Aliás, vemos o programa a esfregar as mãos e com uma certa sede de vingança 'morre desgraçado'. Por instantes aligeira um evento com o qual ainda não lidamos bem, a morte. E sabemos que todos havemos de morrer,  evitamos pensar nisso, e se vemos o programa rimos das maneiras parvas (mas merecidas) com que o divino  presenteou aqueles personagens. Depois do riso, é inevitável que se instale uma certa melancolia, será que eu vou ter uma morte parva? E damos tanta importancia a este aspecto da nossa existencia, que no exacto momento em que deixamos de existir queremos sair em grande.

 

Agora uma história real. Posso chamar-lhe o cucu da discórdia. O velhote que morreu porque levou com o tal relógio de cucu na tola. Uma morte sem jeito nenhum, não é? A família já tinha implorado para deitá-lo fora porque só servia para fazer barulho, acumular pó e transformar a casa num mausoleu bafiento. Aquele cucu iria definir dramaticamente o desenlace desta história real mas será que o senhor pela sua teimoso não estaria mesmo a pedi-las? De acordo com '1000 maneiras de morrer' obviamente.

 

O que só me leva a concluir que cada um de nós está mesmo a pedi-las, só ainda não sabemos quão estúpida será a nossa maneira de morrer.

20
Jun19

Como captar a atenção de um possível empregador?

Cláudia Matos Silva

 

 

Bom, é uma técnica que já partilhei com algumas pessoas em privado e faço-o hoje publicamente. É preciso ter em conta alguns aspectos. O candidato precisa de uma boa dose de loucura (saudável), confiança no percurso profissional desenvolvido até ao momento, ter forma de o comprovar quase inequivocamente e é obrigatório ser uma mente criativa. Para jogarem seguro não podem estar absolutamente desesperado por um emprego. Até porque esta abordagem que irei expôr não é para um lugar na fábrica das salsichas ou para servir bicas num quiosque no cais do sodré. Para estes cargos é melhor usarem os métodos de envio de cvs tradicionais.

 

Aquilo que vou expõr serve para áreas em que emprego e lifestyle se fundem, em que a pessoa não revira os olhos cada vez que chega a segunda-feira ou que esfrega as mãos de contente à sexta-feira porque sabe que é fim-de-semana. O truque, e verão que é tão básico, que aqui será revelado é para quem ama a sua área profissional, para quem corre por gosto e não cansa. Para quem às vezes precisa deum puxão de orelhas dos amigos porque nunca arranja tempo para beberem café. 

 

Nem toda a gente está na condição de viver em função do trabalho porque para muitas pessoas o trabalho serve apenas para ganhar dinheiro. Mas depois há uns malucos como eu que adoram as suas profissões e quando forçados a deixar de as exercer sentem o vazio que resvala para o princípio da depressão. Apesar do governo nos atirar à cara números muitos animadores com os níveis de desemprego a baixar todos os anos, eu posso garantir (mesmo sem ter os números na mão) que é mentira. O que se passa é que muitas pessoas, provavelmente alguns da minha faixa etária, nem sequer estão inscritos logo é como se não existissem, portanto não entram na estatística. Eu, por exemplo, não faço parte da estatística e sinto-me revoltada por cada notícia que avança com o aumento do emprego, porque se há coisa que não há neste país é emprego. A não ser que queiras ser operadora de call center, comercial ou lojista. Infelizmente não reúno talentos para nenhuma dessas funções.

 

É muito triste perceber que miúdos de 30 anos são já considerados 'velhos' para algumas funções e digo-o porque falo com essas pessoas que me garantem ter sido despedidas para que alguém mais jovem viesse ocupar o lugar. O problema dos 30 anos, é que apesar da juventude estar na sua maior força a nível criativo e de resistencia física,  o individuo já tem condições para apontar o dedo a injustiças, impor-se em momentos de pressão, opinar quando as coisas não correm de feição, no fundo defender-se. E chegamos no ponto fulcral, o motivo que me levou a não enviar CVs, jamais. É que eu quero puder defender-me de um possível inimigo/pessoa de má fé, e por isso não posso enviar os meus dados pessoais para uma instituição cujas intenções não são claras. O que farão com os meus dados, com a minha informação, no fundo o que farão comigo sem que eu tenha conhecimento?

 

A ficha caiu-me quando há uns anos uma boa amiga contou-me de um esquema em que se viu envolvida quando enviou uma resposta a um anúncio no net empregos. A empresa era uma farsa, já tinha mudado de nome dezenas de vezes e operava há mais de 10 anos em Lisboa e sempre na mesma morada, a fomosa Rua Alexandre Herculano nº 2 - 1 dto.  Fiquei bastante chocada ao perceber que deixou de ser seguro enviar uma simples candidatura para um emprego. Num cenário negro, onde escasseiam as ofertas de emprego, a surgir algo aparentemente  estimulante e sério, como diabo vou mostrar-me, dizer-lhes que existo, que sou exactamente o que eles procuram?! Foi quando há uns tempos alguém me enviou o link de uma proposta, parecia escrita para mim de tão perfeita, mas mesmo assim não me empolguei em demasia. E aqui entrego-vos a minha táctica e espero que vos dê muita sorte.

 

Enviei um simples e-mail para o endereço disponível no anúncio dizendo qualquer coisa como (e não tenho nada a esconder);

Olá, sou a Claudia , licenciada em ciências da comunicação, tenho 42 anos de idade, 20 anos de experiência como locutora de rádio (Rádio Amália, Capital, Oxigénio, entre outras) e cronista em revistas de lifestyle (DIF, Parq). Para terem acesso a algum do meu trabalho basta clicar.

Aguardo resposta,

Claudia Matos Silva

 

Seca que nem um carapau. Directa ao ponto, sem 'nanana', ou 'caros senhores' ou o raio que os partam a todos. Querem alguém com valência aqui estou eu, sem espinhas. Só isto e mais não é preciso. Lembro num dos casos o empregador contactou-me porque supostamente havia esquecido de colocar o número de telemóvel. Eu não esqueci, eu não coloquei deliberadamente porque podem crer, quem estiver interessado vai arranjar maneira de chegar até vocês. Quem não responder só vos está a facilitar a tarefa e assim ninguém perde o seu tempo.

 

Depois havia muito para dizer sobre a minha contratação e como correu a minha experiência. Mas é assunto para um próximo post.

19
Jun19

Será o marketing multinível uma nova praga?

Cláudia Matos Silva

Sem dúvida. Até a pessoa mais insuspeita há-de abordar-vos com um novo 'negócio da China' que vocês nunca chegam a entender muito bem como funciona e qual o fundamento. É também uma excelente maneira de perder amigos. Perdi duas; uma para a amway e outra para a herbalife. Desejo, no entanto, que os seus investimentos (valor pago na inscrição da plataforma e compra obrigatória do pack para iniciante) resultem no tão prometido Eldorado. 

As plataformas multinível são também muito boas para abordagens de desconhecidos cheios de boas intenções através das redes sociais. Pessoas que farejam perfis em busca de sinais que os possam conduzir de forma, aparentemente casual, a um contacto directo. Já fui abordada por vendedores de productos para a perda de peso, porque é bastante evidente que é o meu  calcanhar de aquiles, bastante assumido,  ou será que não sabem qual é o nome deste blog?

Nos anos 80/90 chamavam-lhes bolha ou pirâmide. Há em Portugal o caso da Dona Branca, conhecida  como a banqueira do povo, como se o dinheiro lhe crescesse nas árvores esta senhora colhia-o e emprestava-o a toda a gente. O que toda a gente não sabia é que essa história da árvore das patacas é mito. A senhora Dona Branca, apesar do bom coração, não emprestava nada que fosse realmente seu, logo era o dinheiro dos outros que andava de mão em mão. E o que acontece quando toda a gente resolve pedir o seu dinheiro de volta? A bolha rebenta.

Quando o esquema se desmorona quem fica no prejuizo é o 'peixe miúdo' ou quem entrou por último neste esquema fraudulento. Há no entanto pessoas a abotoaremm-se ao dinheiro, geralmente quem está no topo da pirâmide, com talentos de feitiçaria; ora fazem o dinheiro multiplicar-se, ora fazem-no desaparecer. Um mistério, não é? Não! Não tem segredo nenhum, são mais ou menos ilusionistas mas em vez de tirar o coelho da cartola, criam em nós a ilusão do dinheiro fácil. Depois quando o truque começa a dar para o torto,  vai tudo ao ar; a varinha mágica, os pozinhos de perlimpimpim, o coelho, a cartola, sobretudo o dinheiro , e como por artes mágicas, desaparecem do mapa. Nos últimos anos em Portugal andou para ai uma grande artista do ilusionismo, antiga funcionário do banco Best, Ana Malfalda Prazeres, que burlou dezenas de clientes aplicando o golpe, inventando productos financeiros que nunca existiram e onde os clientes investiram o seu dinheiro. A reportagem esteve esta semana em destaque na sic e deve ser vista, ao contrário da Ana Mafalda, que nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima.

Este sistema de pirâmide ou bolha é ilegal e levou  muita gente à bancarrota, inclusive um país inteiro. Talvez muitos não se lembrem da crise na Albânia em 1997, cujo sistema financeiro piramidal (também conhecido por Esquema Ponzi, graças a Charles Ponzi, o inventor da marosca lá pelos anos 20 do século passado) foi a base do governo de Sali Berisha, quando em 92 chegou à presidencia da república do que ainda hoje é considerado o país mais pobre da europa. A pirâmide  é um esquema ruinoso e que esmaga sem dó quem está na base. Quem está no topo pega no dinheiro e dá de frosques. Sali Berisha não teve pejo em deixar o seu país em estado de sitio e desaparecer com os bolsos cheios.

E o que acontece a essas pessoas que estão no topo da pirâmide? Para além de se afastarem uns tempos para gastar o dinheiro que roubaram, reaparem-se mais tarde com um novo esquema. Visto que a pirâmide é ilegal então faça-se novo 'croquit', não é preciso ser especialista em geometria descritiva. Só é necessária muita manha e adorar fazer o mundo inteiro de otário (este perfil de pessoas vai um bocado de encontro aos sociopatas....just saying), incluindo as entidades reguladoras.

 

Ah ah, isso da pirâmide não existe, agora chamam-lhe multinível e é legal. O problema é que é mesmo legal, apesar de toda a gente saber tratar-se de um esquema. Ao dizer-se multinível dá uma vez mais, a ilusão, cá estão os mestres de artes mágicas a congeminar, de que estamos todos  ao mesmo nível. Neste tipo de negócios, ao contrário do sistema de pirâmide, há um producto, logo confere legitimidade a quem entra neste esquema. E se o vendedor for realmente eficiente e com uma boa visão de negócio, é bem possível que encontre uma oportunidade de negócio que lhe permita ser o seu próprio patrão. Admiro, e assumo sem hipocrisia, quem consegue uma sólida carteira de clientes para vender os productos, estabelecendo uma relação de cumplicidade e confiança. Mas esqueçam  a treta à lá 'lazy millionaires' (tradução à letra, milionários preguiçosos), isso não existe e todos os que estão profundamente envolvidos neste negócio têm de trabalhar muito mais do que qualquer outro assalariado. E no final das contas se trouxerem 1000 euros mensais para casa é uma fortuna. 

Os anúncios que nos entram pelos olhos dentro nas redes sociais são falsos (muitos até de gosto duvidoso) e prometem metas irrealistas. A linguagem é padronizada com frases a lembrar livros de auto-ajuda, as fotos mostrando ostentação; férias em destinos tropicais ou cenários de famílias felizes, e sempre, uma enorme vontade de partilhar o saber.  Afinal conseguiram tudo aquilo sem esforço e ainda me querem contar, a mim, o grande segredo. Das suas uma, ou sou mesmo uma pessoa muito especial ou tenho escrita na testa a palavra otária.

Estalece-se uma 'bonita', 'sincera' e 'genuina amizade' entre estas pessoas que mais parecem fazer parte de um culto, onde há sempre lugar para a celebração e grandes demonstrações de ostentação. É tudo em grande! E para que serve tanto alarido? Para incentivá-las porque é do seu trabalho; de recruta e venda de productos, que os do topo se alimentam. E poucos percebem que é este o principal objectivo, enriquecer os inalcançáveis, os cabeçudos, os que estão nos píncaros, os que ninguém sabe quem são. É assim que a estrutura realmente funciona, e por isso 'o peixe miúdo' vive alienado julgando lutar diariamente pelo seu próprio negócio, em busca do tal 'empoderamento' (palavra que me irrita bastante). Pessoas desligadas da realidade trabalham arduamente para atingir os objectivos e subirem de nível, uma escadaria tão longa que quanto mais sobem mas têm que subir. Quando chamadas à atenção para a possibilidade de estarem envolvidas num negócio que não é claro, revoltam-se e cortam relações com amigos e família. É uma doutrina e os que aprenderam bem a lição perdem a cada dia que passa o sentido da moral.

Passou recentemente uma reportagem na sic notícias com a marca BBC sobre as empresas multinível. Algumas pessoas responderam directamente à reporter através de vídeos no youtube. E esses videos em que defendem o sistema multinível só comprova tudo o que escrevi anteriormente.

 

18
Jun19

Porque voltei à blogosfera?

Cláudia Matos Silva

 

Por causa do vendaval, o que acontece todos os dias na minha cabeça e me tira horas de sono. Desde que aprendi a escrever fiz dessa arte uma forma de partilhar histórias, não só a minha mas as que oiço, as que intuio, as que me contam e as que invento. A blogosfera é o melhor sitio para dar vazão a esta necessidade que segue a extensão do meu braço, das minhas mãos e dos meus dedos para se traduzir em palavras. É uma arte muito bonita a de saber expressar sentimentos em palavras mas creio que nem toda a gente tem talento para elevar a arte esta forma de expressão. Quando, numa fase de desesperança, observei a minha escrita e me arrepiei de horror, deixar de escrever. Minto, passei a fazê-lo em cadernos com argolas e capa azul escura, uma espécie de diário (coisa que nunca tive grande paciência para dedicar o meu tempo) e que ajudou a expulsar atabalhoadamente algumas das ideias que matutavam na minha cabeça impedindo-me de dormir. Uma espécie de higienização da mente, os cadernos todos rasurados, a letra feia que doi, as canetas nem sempre eram as mesmas nem da mesma cor, quando não havia caneta ia a lápis, tudo servia um só propósito, expulsar o tanto que a minha cabeça produz e na maior parte das vezes não me serve de nada. 

 

Um dia estava a partilhar ideias com um bom amigo e ambos lamentavamos o empecilho que é o nosso perfeccionismo. A maior parte das vezes não fazemos as coisas porque antevemos aquele sabor amargo de insatisfação. E como isso nos custa, porque se ao menos tirássemos os sentidos de todas estas ideias que nos afloram o cérebro?!! Só que não conseguimos de  parar ensimesmar nelas, de imaginar como seria, técnicas para atingir a perfeição, ou o que naquele instante julgamos perfeito para no minuto seguinte acharmos que não vale um chavelho. Então ele disse-me 'às vezes temos de saber ligar o botão cága nisso' e logo me ocorreu voltar aos blogs.

 

Não, não me estou a cagar para a blogosfera mas atentem, entre outros motivos, um dos que levou ao meu afastamento foi perceber que a minha escrita não acrescenta nada, que dou erros, que deixo gralhas pelo caminho, que me escapam acentos e nunca fui grande pistola na pontuação. Esse facto melindrava-me e aos poucos fui-me sentindo cada vez mais dispensável, não só aqui, como um pouco em tudo na minha vida. Porém, activei o tal do botão cága nisso ou quero lá saber, porque há um mundo de gente a escrever tão mal e se eu for apenas mais uma, qual é o problema? As plataformas estão disponíveis para que democraticamente se possam usar, desde o nóbel até ao sapateiro e nada garante que o sapateiro não escreva melhor que o nóbel. Toda a gente pode (e deve escrever), nem que seja para não se esquecer como se faz. E se o médico nos recomenda para a boa manutenção do corpo, uma alimentação saudável, uma caminhada diária de 45 minutos. Então e o intelecto? Quem nos recomenda a sua manutenção? É preciso exercitá-lo ou então toda a evolução da humanidade não serviu de nada.

 

Bem ou mal, eu escrevo, observando o mundo à minha volta e relativizando as imperfeições, aliás abraço-as, porque são elas que me tornam um ser único; no mundo, na minha rua, na minha casa e no meu blog.

 

Obrigada à equipa da SAPO. 

16
Jun19

A percepção é mesmo a realidade?

Cláudia Matos Silva

 

Eu tinha uma ideia mais ou menos superficial do real significado desta frase mas creio que finalmente consegui relacioná-la com factos reais da minha vida. E é isso que vou partilhar. Vamos lá...

 

A percepção é a realidade.

 

Sabem aquelas pessoas que dizem saudosas 'ó tempo volta para trás' ou observam crianças a brincar no parque e lembram com ternura as suas próprias infâncias? Eu não sou uma dessas pessoas. Suspirei de alivio quando cheguei à idade adulta e pude começar a decidir, coisas simples; se vou de metro ou autocarro, opto por ciências ou artes, quero ser puritana, vádia ou ambas. Lembro-me do exacto momento em que realizei na minha cabeça que tinha chegado a adulta e que já não seria forçada a estar com amigos escolhidos, por sabe-se lá quem, baseados apenas num denominador comum, a idade. Uma coisa que sempre me incomodou, pegarem na maralha que tem mais ou menos a mesma idade 'vá agora entendam-se, brinquem, sejam crianças'. A questão é eu não queria ser criança e forçarem-me a brincar só porque sim era um tormento.

 

 

Tenho no entanto, ou deverei reformular, tinha duas excelentes memórias, que salvavam a honra da minha infância e da minha adolescencia. Afinal havia episódios memoráveis, maravilhosos e que em horas de ternura ou partilha de pedaços felizes da vida passada, falaria (e apesar de tudo continuarei a falar) inevitavelmente destas duas pessoas, a Fernanda e o Carlos. Vamos por partes.

 

A Fernada. Ela e a sua avó Norberta salvaram a minha infância de ser um período absolutamente horrivel. Quero relembrar, pelo termo horrivel, entendam que eu era uma criança que não queria ser criança, portanto nada mais há assinalar que este facto.

 

A Fernanda tinha uns grandes olhos azuis, como os da avó, tinha um sorriso largo, os dentes branquinhos e umas gengivas muito salientes. Adorei ser criança com ela. Era uma miúda que provinha de uma classe média (na escala social eu estava uns furinhos abaixo) e ela dava-me a conhecer pequenas coisas que não entravam na minha casa como boa música pop dos anos 70. Coisas simples como o gira-discos dos avós, a colecção de discos  do pai, e esse pequeno detalhe fazia-me sentir especial e adulta, porque eu estava a ouvir música de gente crescida como por exemplo Brian Ferry e Roxy Music. Ainda hoje 'more than this' é um hino à minha infância com a Fernanda e por isso guardei as melhores recordações para além das fotografias e cartas. E apesar de nos termos afastado tentei voltar ao contacto. Mas não estava fácil, o universo não estava a nosso favor, mas o que vim a descobrir é que a Fernanda não queria ter nada a ver comigo. As lembranças boas que ficaram comigo, eram paradoxais às dela e na sua perspectiva toda a infância, mesmo os momentos passados comigo, eram para ser mortos e enterrados. Soube que não era nada pessoal, menos mau, mas que não queria réstia de memórias desse período. Cortou relações com quase toda a família e emigrou para a amazónia onde é professora universitária. 

 

O Carlos. É o que guardo, ou deverei dizer, guardava, de melhor daquele periodo crítico na vida de qualquer pessoa, a adolescencia. Eu não conseguia fazer amizades de verdade, encaixar em grupo algum, mas ao menos lá ia tirando notas decentes, pelo que nem tudo era assim tão mau. Lembro-me num exercício de grupo, a professora de português pediu para que a turma se organizasse por grupos. Eu e outra pessoa ficamos sem grupo, estavamos ali à espera que alguém nos escolhesse, para uma adolescente de 14/15 anos aquilo é de uma crueldade sem dó. Lembro-me de uma miúda comentar 'aqueles são os restos, os que ninguém quer'. Ela tinha toda a razão na sua apreciação, e  sei foi sem maldade, mas eu tinha descido o mais baixo na hierarquia escolar. Até que o Carlos se abeirou e quase como um herói, o meu principe gadelhudo e que ouvia heavy metal, assegurou que comigo faria um grupo e que seriamos só os dois. Pronto nunca mais esqueci este gesto (que considero extremamente romantico) e talvez por isso pouco mais tarde me tenha apaixonado completamente. Mas antes disso houve gratidão e amizade que ainda hoje mantenho. Se a minha adolescencia não é aquele perído a arrancar totalmente da memória é graças a pessoas do bem que conheci, o Carlos ocupa o primeiro lugar. 

 

Nos amores a coisa entre mim e o Carlos não correram de feição. O problema é que eu era timida e ele também, e andavamos desencontrados, quando eu estava com vontade de arriscar ele desaparecia de cena e vice versa. Entendi essa relação como de amizade, acima de tudo,  se nunca rolou amor é porque não tinha de ser. Não guardo qualquer mágo ou angústia, nem sequer considero um caso inacabado.

 

Uma coisa era certa, nutria por ele um imenso carinho e muitas vezes tentava procurá-lo nas redes sociais para retomar o contacto. Acontece que vi-o ontem e para meu espanto não senti absolutamente nada. O Carlos casou, tem uma filha e está transformado num homem de meia idade a ficar careca, opado e com falta de visão. Não seria de todo o homem que me encheria as medidas, mas não era disso que se tratava mas em nome de um passado que partilhamos e uma convivencia tão genuina, queria dar-lhe um beijinho, conhecer a familia dele, apresentar-lhe o meu companheiro e dizer que tinha gostado imenso de o rever. Era isso que tinha planeado se um dia tivesse a sorte de o reencontrar. Não foi nada disso que aconteceu. Posso alegar que o Carlos não me viu, não me reconheceu, estava entretido, ou eu própria estou irreconhecível, agora mulher de meia idade, opada, de franjinha mas ao contrário dele, eu não estou com problemas de visão. Apesar de mal perceber que se tratava dele, observei-o curiosa, eu sabia que aquela pessoa não me era totalmente estranha. Vejam bem, reconheci-o pelo andar, caminha da mesma maneira de quando era só um puto xarila; lento, balança o peso do corpo de uma perna para a outra como se caminhar desse imenso trabalho.

 

Tal como a Fernada ele selou o passado, onde eu me encontrava, lá nas catacumbas. Encarei-o tantas vezes, buscando o seu olhar, ainda pensei falar-lhe directamente, aliás o meu parceiro incentivou-me a isso, mas lembrei-me da Fernanda. Quando insisti contacto com ela através do facebook, não hesitou em bloquear-me. Para quê impor-me quando o capítulo está encerrado. Por mais que me custe é preciso respeitar.

 

Claramente a minha percepção de momentos que partilhei com estas duas pessoas são a minha realidade, a que mantenho, intacta, e guardo a sete chaves minha memória. São do melhor que me aconteceu. Então e porque o contrário não é verdade? Porque cada pessoa tem a sua própria percepção da vida; do que  passou, do que querem no presente e do que sonham para o futuro. A percepção é algo tão pessoal e subjectiva que no campo das emoções não há verdade absolutas.

 

Já pensei queimar as cartas que guardei da Fernanda ou  desfazer-me dos poemas que escrevi para o Carlos, mas isso seria forçar toda a minha perspectiva e eu adoro a realidade de os ter tidos aos dois na minha vida. Vou guardá-los no coração e regalar-me com lembranças, pelo menos  enquanto a memória não me falhar. Que bonita é a minha realidade, a que percepciono com a Fernanda a mostrar-me as músicas do Prince e o Carlos a tocar Joe Satriani.

 

Espero que um dia leiam isto.

14
Jun19

Qual o sentido da vida?

Cláudia Matos Silva

 

Ah ah, apanhados! Carregaram no link por causa do titulo! Com que então são vocês que tornam os livros de auto-ajuda em best-sellers! Shame on you:) 

 

Pois, eu só não sei o sentido da vida como este post não faz sentido nenhum, mas cá vai, na esperança de que vocês, os leitores da Alexandra Solnado (afinal ela diz falar com deus) me ajudem a perceber o que é isto que andamos todos para aqui a fazer. Dizem que é viver mas não me parece.

 

As minhas reflecções mais profundas acontecem em sitios inusitados, a última (nunca sabemos realmente quando é a última, pois não?!) foi na caixa do Pingo Doce. É um dos locais onde menos gosto de fazer compras mas face à concorrencia os preços não me dão alternativa. Mesmo que a clientela adore passear os carrinhos pelos corredores tão ou mais apertados que as roupas dos próprios funcionários, refilando lá vou às compras trazendo um saco cheio por pouco mais de 10 euros. Quase sempre saio de lá com o saco ao ombro e a pensar como raio consegui trazer tanta coisa por tão pouco. Naquele instante, deixando para trás os velhotes que atravancam os corredores em pequenas discussões familiares, sinto-me uma perita em compras para o lar, a rainha da poupança ou somente uma forreta do caraças.

 

Levo um estilo de vida, como dizer, 'free-style', tipo faço o que me dá na real gana. Não sei por quanto tempo poderei levar esta vida mas por agora é assim e nem sempre me sinto contente por isso. E não nego, às vezes penso, que tal enviar uma candidatura espontânea para o grupo Pingo Doce? Segundos após, concluo, trabalhar no Pingo Doce não iria certamente preencher o vazio que sinto na minha vida. Verdade seja dita, não sei o que poderá colmatar este meu descontentamento pela vida em si mesma. Vou tentar explicar-vos o que até para mim é inexplicável, é como se alguém me tivesse vendido a ideia de que viver é uma coisa fantástica e no final das contas me tenha sentido enganada. Então é isto a vida? - penso.

 

No meio deste meu pessimismo há sempre o humor, tal como acredito sofrer de angústia crónica, também estou convencida de que sofro de uma outra patologia, estupidez aguda, mas com essa eu vivo bem. Diria até que é esta estupidez que me anima e me leva a alimentar alguns projectos na blogosfera (e o meu canal no youtube).

 

O facto que vou partilhar podia (e devia) fazer parte da minha lista de histórias a contar em tardes quentes de verão a um núcleo restrito de pessoas que gostam de rir a bom rir. O problema é que a história até pode ser engraçada mas não me caiu em graça.

 

Ora, mais um dia e lá estava eu na fila do Pingo Doce pensando no existencialismo 'ser ou não ser, eis a questão', pera isto é Shakespeare. Voltando, será que devia mandar a tal candidatura espontânea para o Pingo Doce? Não, não, não, repeti como um mantra pra mim própria, olhando à minha volta e lamentando a sorte de quem trabalha numa superficie comercial, a cadeia pouco importa; jumbo, lidl, mini-preço, continente. São todas iguais e geralmente quem ali entra na esperança de ser apenas por uns tempos, até arranjar algo melhor, ficará preso para sempre e a definhar de tristeza. O que parecia uma amigável promessa de emprego estável, revelou-se numa armadilha. 

 

Continuava na fila para ser atendida, e começo a aproximar-me da robusta operadora. Meia idade, despachada, cabelo muito encaracolado e aloirado. O que veria ao aproximar-me dela, deixaria as minhas órbitas efectivamente em órbita. Não, não eram unhas de gel pindéricas a precisar de manutenção urgente, nem aquela falta de dentes a descoberto quando o sorriso é desbragado, sequer as pestanas postiças a desmoronarem deixando pelinho a pelinho cair em cima das maçãs do rosto, ou o eyeliner preto esborratado a denunciar um dia de calor. Nada disso.

 

 

Quando estou na fila e começo a colocar as compras no tapete sinto-me embaraçada, com receio que notem o tipo de productos que adquiro. Enlatados, chocolates, bolachas, batatas fritas e areia para os gatos. Costuma ser isto, mais chocolate, menos pacote de bolachas, compras de mulher despreocupada com as lides caseiras, uma não fada do lar, obviamente. Nesse dia, nem sei o que pousei no tapete rolante porque mal alcancei a operadora de caixa os meus olhos focaram a camisa que vestia. Uma camisa com pins e pendurezas e claramente apertada. Eu não sei quem estaria em maior sufoco, se a camisa cujos botões a esgaçar pediam socorrooooo ou se a própria rapariga que mal se conseguia mover. Eu acredito que naquele momento a camisa estava objectivamente em apuros porque a operadora continuava a passar energicamente os códigos de barras dos productos, sorridente, olhando-nos no rosto enquanto, o seu soutien cor de pele dizia 'cu cu, estou aqui' para quem o quisesse ver. Os seus braços gorduchos estavam prensados pelo tecido rígido da camisa e também o estômago ameaçava rebentar com os botões ao nível do perímetro abdominal.

 

Por mais que olhasse em volta e visse cartazes dos productos super frescos do Pingo Doce, dos seus preços imbatíveis, de como gostam de receber os clientes (de janeiro a janeiro) e de como a equipa vasta e incansável adora o seu ofício, eu tive a certeza de que aquela mulher já não iria mais sair dali. Daqui a 10 anos aposto que lá estará alegremente a passar os códigos de barras dos productos e espero que mantenha a mesma genica e o mesmo sorriso mas tenham a dignidade de lhe oferecer uma camisa nova. Porque se a vida como a vivemos não faz sentido nenhum, ao menos  possamos encher o peito de ar, respirar fundo e ganhar energias para um novo dia. Esta mulher nem a esse luxo se pode dar,  correndo o sério risco de lhe saltar um botão e vazar a vista a um cliente. Isto não faz sentido nenhum, é só o que vos tenho a dizer.

 

FIM.

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