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Quem Tramou a Gordinha?

Quem Tramou a Gordinha?

06
Ago20

BB 2020: Será que a Soraia foi a justa vencedora?

Cláudia Matos Silva

Apesar de se dizer que nestes concursos só ganham os coitadinhos, a Soraia é a justa vencedora da edição 2020 do Big Brother, e nela não veja uma coitadinha mas uma miúda que sabe estar. Foi esse sentido de bem saber estar em grupo, evitar os conflitos ou fazer-se de desentendida que lhe valeu os 50 mil euros. É um jogo arriscado, a Soraia podia ser entendida pelo público como 'mosca morta' ou alguém que não acrescentava nada à casa. E em termos de polémica, apesar de cá fora se iniciar um movimento que a defendia devido a alguns comentários infelizes sobre a sua forma fisica, o tema acabou por se diluir no que é verdadeiramente importante, o poder de encaixe da Soraia.

 

E dentro da casa do BB parece que se vive um micro-clima, uma pequena selva cheia de várias espécies de animais. Logo à partida diz-se que o Leão é o rei, e nesta edição do BB (como acontece em todos os Reality shows) houve quem quisesse assumir a juba do felino e  ser líder. No entanto, nesta casa não houve lideres, e até os grupos se revelaram frágeis e nada ágeis na hora de tentar manipular as nomeações. Sem surpresa, ganhou a Soraia, apesar de muitos torcerem pela Noélia ou pelo Diogo. Três concorrentes mal amados dentro da casa e admirados fora dela. Todos fizeram o seu jogo, a Noélia em jeito de formiguinha trabalhadora, o Diogo uma espécie de mocho na penumbra mas sempre atento e observador. Ainda no reino dos animais, a Soraia talvez tenha sido uma topeira, meio distraída, ingenua,  mas sorrateiramente enquanto todos dormiam ela escavava o caminho para a vitória. Bem sei que a topeira não é o animal mais glamoroso, digno de uma vencedora (houve tantos potenciais leões que acabaram a miar fininho) e sim o cheque é da toupeira, bichinha focada e dedicada. 

 

50 mil euros são daquela que parecia que nada via, nada ouvia, nada sabia. É preciso talento para ser topeira, especialmente para concorrentes que sofrem de claustrofobia. Agora fora desse buraco negro, sê livre e respira o ar da vitória. Parabéns Soraia! Uma recomendação, deixa lá a topeira, mete essa juba em grande evidencia (sim deixa de usar essas perucas farçolas), assume a liderança da tua própria vida e deixa de pedinchar amor. 

28
Jul20

Porque é que este ano não vou de férias?

Cláudia Matos Silva

 

Apesar de tudo não me sinto confiante nem motivada. Desperdiçar dinheiro numa altura em que tudo anda a meio gás e nos restaurantes vemos a confusão estampada na cara dos funcionários. Neste período, das poucas vezes que jantei fora, senti-me desapontada. Serviço pobre, comida mediana e uma inevitável tensão no ar. Há quem use máscara, há quem não use, é literalmente ao gosto do freguês. Para evitar mais embaraços e situações stressantes tomei a decisão de passar o Verão em casa e usufruir dos espaços ao ar livre nas redondezas. Nas horas de maior calor, revejo imagens antigas de férias felizes em sitios lindos no nosso país. Se ainda não foram a Aljezur ou a Sagres são visitas obrigatórias. 

 

 

27
Jul20

Quem é Bruno Candé?

Cláudia Matos Silva

Bruno Candé foi até aos 39 anos um actor de teatro, cujo pano caiu sobre si como numa tragédia, no Sábado passado. Candé  foi morto com 4 tiros em plena luz do dia no centro de Moscavide por um idoso de 80 anos. Os motivos? Não havia realmente motivos, logo se diz serem futeis.  É como se o facto de não irmos com a cara de alguém nos desse a legitimidade de a matar. Entre estas duas pessoas terá havido uma troca amarga de palavras. O Bruno lá continuou com a sua vida, já o idoso tinha sede de vingança. É claro que a maior parte das pessoas prefere colocar esta situação na categoria crime racial. É bem possível que o assassino fosse racista, como de resto são muitos da sua geração (perdoem-me a generalização), é possível que até tenha estado na guerra do ultramar e por isso veja os negros como seres inferiores. É possível que sofresse de algum trauma pós guerra ou que simplesmente odiasse o mundo inteiro porque este país não é mesmo para velhos. Mas nada desculpa o fundamental nesta história, a morte de um jovem indefeso. O que aconteceu Sábado passado foi bárbaro e leva-me a crer que nenhum de nós está a salvo. Quem será a próxima vitima? 

22
Jul20

Será que uma mulher sozinha está mesmo a pedi-las?

Cláudia Matos Silva

Hoje conto-vos a história de uma mulher irreverente mas cujos valores familiares se impõe acima de tudo. Ela move-se pelas suas paixões, manias e caprichos. É dificil entendê-la, é por isso comum, que as opiniões sobre ela se extremem. Podem apontá-la como extremamente humana e justa ou só uma valente cabra insensível. Uma coisa é certa, falo de uma mulher extraordinária a quem acontecem coisas extraordinárias. Adora contar as suas histórias com alguma dramatização pelo meio, revirar de olhos e trejeitos exagerados. Desta vez o semblante estava pesado e disse-me que não tinha vontade nenhuma de falar do assunto.

 

Num domingo como qualquer outro na praia das 9 da manhã às 8 da noite, havia todas as condições para um dia fantástico. Daqueles que só come, dorme e nada, descansando o corpo e a mente das responsabilidades que carrega todos os dias. Ela tem ombros largos e estrutura forte, é daquelas pessoas com uma resistencia fora de série, uma pessoa descontinuada porque já não fazem mais senhoras com esta fibra. Isso não quer dizer que não sinta como toda a gente e que não se melindre com as situações do dia a dia. A verdade é que, o episódio que partilho não deveria acontecer nunca, aposto no entanto, que as mulheres que me estão a ler já se terão deparado com isto, em moldes mais ou menos parecidos, mas na essência iguais.

 

Vamos lá. Havia terminado mais um domingo de praia, dirigia-se para o parque de estacionamento para calmamente se compor. Já dentro da viatura vê uma sombra junto do vidro (que por sorte estava fechado) e quando olha vê um exibicionista que de calções de banho coloridos exibia uma tremenda erecção que quase trespassavam os calções. Ela assustou-se, é no entanto forte, e não deu parte fraca. Manteve a calma e não voltou a olhar. Ele continuava encostado à janela massajando o membro enquanto ela, no topo da sua elegancia, continuava a ignorar. Deu à chave, o carro começou a trabalhar e partiu deixando para trás uma situação absolutamente perturbadora. Não queria falar disso, denunciar ou fazer alarido. Só queria esquecer mas não conseguia. Pergunta-me 'mas porquê eu?'!  Enquanto continuarmos a temer estas pessoas, a encolher-nos e a não falar do assunto, seremos cada vez mais as mulheres assediadas moralmente desta forma asquerosa. Porquê ela, então e porquê eu?!

 

A mim, particularmente, isto já me aconteceu duas vezes. O crime foi perpetrado por pessoas aparentemente normais e em sitios de uso comum como por exemplo dentro da carruagem do metro em Lisboa. Tal como ela eu não queria falar do assunto, e na altura vi-me completamente apeada, sem ninguém a quem pudesse recorrer porque para todos os efeitos seria a minha palavra contra a de um senhor que podia ser contabilista numa empresa de renome.  Na altura fiz-me a mesma pergunta 'porquê eu' e foi fácil encontrar a resposta; eu estava sozinha, ela estava sozinha. e tu, costumas andar sozinha? Até quando isto nos vai continuar a acontecer?

17
Jul20

Então Jesus, porque vais voltar?

Cláudia Matos Silva

Será pela família, pelo Covid, para fugir ao escândalo com a advogada brasileira ou pelo benfica? Eu diria que é por tudo isto mas no topo do bolo não está a cereja mas o 'pilim' e que atire a primeira 'padrada' quem nunca se moveu pelos carcanhois. Afinal o mundo gira em torno do dinheiro e por mais que tentemos romantizar uma vida onde nos alimentamos de amor e poesia a verdade é que, a não ser que tenhamos um caso com o padeiro ou o peixeiro, ninguém escapa ás suas despesas. 

 

De qualquer forma, há muito que acredito que, Jesus nunca quis sair de Portugal, e aquela historieta com o Sporting foi uma marretada não só na carreira mas na vida pessoal do treinador. No fim das contas, o que estava reservado para Jesus era muito mais do que se imaginava. E depois de andar pelas arábias, faz-se rei das américas. Não tivesse ele o nome do divino, podia ter levantado um certo mau estar entre os brasileiros que ainda não esqueceram a imagem do colono português. Ora Jesus, não foi colonizar o futebol brasileiro, bem pelo contrário, potenciou o talento de quem já sai da passarinha da mãe a sambar, a dar toques de bola e a beber água de coco. Assim é o brasileiro, um portento seja nas artes ou no desporto, Jesus meteu ordem no Flamengo e foi quanto bastou para aquela malta começar a ganhar trofeus.

 

Podem espantar-se, porque raio escrevo um texto sobre um treinador de futebol? É estranho, confesso que sim, não ligo nada a futebol mas diz-se que sou do Sporting. Já sabemos que Jorge não teve sorte no clube verde e branco, mas sabe-se (de acordo com a CMTV) que irá regressar ao velho continente para comandar os destinos do clube da águia.

 

Este video já foi gravado há um tempo, ainda o Covid não fazia parte do nosso dicionário. Sempre desconfiei que o JJ estava com o cu no ar para voltar aqui para o burgo. Digam o que disserem há lá melhor sitio para viver que nesta chafarica a que chamaram de Portugal.

 

O treinador com mais de 60 anos é para mim a prova de que nunca é demasiado tarde para alcançarmos os nossos sonhos. É por isso que escrevo estas linhas sobre alguém ligado ao futebol e que na verdade me diz muito pouco enquanto pessoa ou profissional. Não posso, no entanto, ignorar que este era o tipo com quem toda a gente gozava, o rei das bacoradas, o que escarafuncha os dentes com a língua durante as conferencias de imprensa e que teve uma conversa surreal com a pintora Paula Rego. Gozámos com ele durante tanto tempo e nesta altura temos de nos vergar às evidencias, a idade fez-lhe bem. Como um bom vinho maturado, deu-nos a todos (e não falo de futebol) a esperança de que ainda vamos conseguir realizar os nossos sonhos. Porque no fundo o Jorge é só aquele tipo que nasceu na Amadora e que durante anos viveu na sombra para chegar a uma idade madura e mostrar que esteve sempre a trabalhar para o seu grande sonho. Trabalhemos nós para o nosso, porque não é tarde, e Jesus é disso prova.

06
Jul20

Que mal há na capa da Vogue PT deste mês?

Cláudia Matos Silva

 

Eu não vejo nenhum. Não vou discutir se a capa é bonita ou feia, mas gosto da pertinencia do tema, saúde mental. Muitas figuras públicas já vieram a público manifestar desagrado com a estética adoptada pela Vogue Portugal para falar de um assunto tão sensível. E têm razão, o assunto é sensível, mas enquanto continuarmos a falar dele como um bicho de sete cabeças as coisas não tendem a melhorar. É importante discutir o tema, portanto neste caso o que me importa mesmo é o conteúdo e não a forma. É uma capa que remete para as terríveis experiências de lobotomia e choques eléctricos relembra a crítica Rita Ferro Rodrigues, é bem verdade. Mas não podemos, nem devemos apagar da história esse facto, e tentar negar ou camuflar não ajuda em nada a problemática da doença mental. Aliás o facto de hoje se usar o termo 'saúde mental' já é uma evolução gigantesca, numa condição que nunca foi bem entendida e que durante séculos e séculos foi alvo de equívocos graves. Ainda hoje paira nas nossas cabeças a inevitável comparação a um doido quando alguém age de uma forma diferente para o seu tempo. E isto remete-me para um livro português baseado numa história real. 'Doida, não e não' de Manuela Gonzaga. Recomendo mesmo a leitura.

 

 

A história real de uma mulher que foi tida como doida por se apaixonar por um homem muito mais novo. Infelizmente a sua institucionalização deu-se com o apoio de pessoas importantes como Egas Moniz que pelos vistos estava mais preocupado em defender os interesses dos seus amigos poderosos do que do real estado da saúde mental dos pacientes. Há inúmeros casos relatados à época de pessoas nestas situações, internadas porque alguém entendia que eram inconvenientes, logo loucas.

 

Leva-me a perguntar, como se mede a loucura? A loucura não é matemática e não há dois casos iguais, como não há duas pessoas iguais. Se a loucura fosse uma equação de matemática secalhar eu nem estaria a abordar o tema, porque não seria tema, mas um facto, uma ciência exacta. Mas este é um assunto tão sensível, melindroso e do qual ainda se conhece muito pouco (apesar da imensa evolução) que acredito exercer temor perante muitos de nós. Não é por acaso que se diz 'nunca se contraria um maluco' porque nunca sabemos o que vai acontecer devido à imprevisibilidade do carácter do demente. Por isso gostava de dizer que este post não é para contrariar a opinião de ninguém, é apenas para tentar desmistificar algo que só por si tem tido ao longo dos séculos muita mistificação. Vamos falar das coisas como as conhecemos, como as sentimos, trocar ideias e perceber que não estamos sós neste terrível estado do loucura colectiva a que o Covid 19 nos está a levar. 

15
Jun20

Está tudo doido?

Cláudia Matos Silva

Este é o mais recente video do meu canal no youtube. É provavel que as minhas palavras sejam descontextualizadas e o meu humor passe despercebido, mas não consegui ignorar a estupidez que anda a percorrer o mundo inteiro. Portugal também não quis ficar de fora de reclamar a moda dos 'ismos', e não estou a falar do Covid19 que não é estupidez mas para muitos uma fatalidade, falo das supostas manifestações que mais não são do que ajuntamentos de pessoas cheias de tédio até à ponta dos cabelos. Eu percebo, também ando aborrecida com a minha vidinha, andamos todos, mas bolas (eu é sempre bolos) não vou para a rua astear uma bandeira sem sequer saber o que ela quer realmente dizer e o que podem implicar as palavras que me saem boca fora.

 

Espero que gostem deste video e se não gostarem é porque claramente não falamos a mesma língua, portanto, mantenhamos a distância higiénica, tá?! 

04
Jun20

Devemos gerenciar os comentários aqui no sapoblogs?

Cláudia Matos Silva

Sim.

 

Até há pouco tempo julgava que ninguém me lia, logo ninguém teria a paciência de me responder. Na verdade, este espaço que aqui mantenho, serve para não perder o hábito de uma das minhas paixões, a escrita. Escrevo sobre estados de alma, a melancolia, o meu sentido de observação, do que acontece à minha volta, a minha dificuldade em encaixar na sociedade entre outras questões existenciais. Quem vai querer ler ou comentar isso?  - pensei. E pensei bem. Até agora eram só flores no reino do blog 'quem tramou a gordinha?'

 

A coisa mudou quando toquei num assunto polémico, o caso Ruben Couto e Beatriz Lebre. Um caso que levanta muitas paixões e muitos ódios. Opinei sobre o assunto e como não escrevi o que alguns queriam ler, fui atacada verbalmente por anónimos que ainda por cima sofrem de iliteracia, pois não souberam interpretar as minhas palavras e distorceram-nas. Acusaram-me de glorificar o assassino Ruben Couto, o que claramente não é verdade. Lembro que um assassino não tem de ser 'feio, porco e mau' e valido esta minha convicção falando de um dos mais mediáticos serial-killers de sempre, Ted Bundy.

 

Enfim, como se tratavam-se de ignorantes e anónimos optei por não lhes responder, em tudo seria um debate inócuo. Então pra não me chatear, lembrei-me dessa opção aqui no sapo; gerenciador de comentários. Todos terão de passar por mim para ficarem no blog. É normal que não queira ser ofendida na minha própria casa e que a queira manter limpa e organizada. 

03
Jun20

E a menina, já desconfinou?

Cláudia Matos Silva

Eu não. Nem pretendo desconfinar tão depressa.

 

Quero acreditar, se estivermos devidamente protegidos, não há perigo nas pequenas acções do dia a dia. Eu já podia ter ido a uma esplanada beber uma somersby, caminhar no paredão da costa enquanto comia um gelado ou beber uma bica no café do bairro. Podia mas não quero. Não quero por mim e pelos outros. 

 

Por mim, porque sei que aos primeiros atrevimentos de desconfinamento, eu poderia começar a sentir-me afoita e aos poucos ia esquecendo-me de pequenas medidas de segurança. Talvez começasse a esquecer-me de manter a distancia de segurança, quem sabe se deixasse de desinfectar as mãos após alguma acção aparentemente inócua e que se poderia revelar fatal. Não quero facilitar ou até desvalorizar esta pandemia. Quero manter-me alerta, atenta e cuidadosa. Bem sabemos que o inimigo nos ataca após ganhar a nossa confiança e eu não quero cá intimidades com a super estrelas dos vírus, o tal do Corona.

 

Pelos outros, porque anda tudo doido. A maneira como usam as máscaras é uma afronta à saúde pública. Sinceramente, incomoda-me mais uma máscara mal colocada do que a ausencia da mesma. Ao menos sem máscara sabemos que aquela pessoa é para nós um perigo, com máscara não sabemos ao certo em que medida aquela pessoa está a infectar-se a ela própria e por conseguinte os que estão à sua volta. Já todos nós nos cruzamos com pessoas a usar a máscara de forma idiótica. Se não fosse tão triste até dava vontade de rir. No caso que vou relatar, limitei-me a manter a distancia e a abanar a cabeça em jeito de reprovação. Então um senhor idoso na fila do Lidl, usava uma máscara já tão suada e quase desfeita em fanicos, com o elástico em volta do queixo e o filtro no topo da careca, assim meio 'papa style'.

 

Fico com a sensação de que aos poucos o vírus vai fazendo parte da 'família' e que qualquer dia o Covid 19 será apenas mais um entre tantos que por ai circulam. A verdade é que o Covid19 teve o mediatismo que nenhum outro virus teve neste século XXI, diria ser a estrela dos vírus que deixou o mundo de pernas para o ar e arruinou a economia mundial. Depois há os otimistas que acreditam na missão de regenerar o planeta terra, só é chato que a raça humana fique em risco, mas como foi através da acção humana que o nosso planeta tem ficado gravemente doente, é facil perceber que também nós somos um vírus e bem mais mortal que o Corona.

01
Jun20

Que tipo de criança fui?

Cláudia Matos Silva

No dia da criança, reflito sobre a criança que fui e posso garantir-vos que fui aquela criança que não gostava nada de o ser. Ao passo que hoje ser criança é um privilégio, dai famosa frase 'em nome do superior interesse da criança', há mais de 30 anos, ser criança era uma coisa meio hibrida. Parte da minha geração veio ao mundo por genuina vontade dos seus pais, mas há um número muito grande de crianças que veio ao mundo porque 'fazia parte do plano'. O tal plano que os nossos pais nos transmitiram mais tarde (casar, arranjar casa, trabalhar e ter filhos, comprar carro)  mas promovendo-nos melhor qualidade de vida (dentro dos possíveis) e mais estudos (dentro do orçamento familiar). Da minha parte ser criança nos anos 80 não era lá grande coisa; vivia alienada da vida real e sem saber ao certo o que tinha cá vindo fazer. Este desligamento da realidade mantem-se, só que agora, já adulta, consigo fingir melhor.

 

Não seria justo dizer que tive uma infancia dificil, que fui maltratada ou passei fome. A verdade é que não gostava da posição em que estava. Sentia-me uma marioneta; ora levavam-me para a escola e lá ficava até me irem buscar, ora ia ao médico porque andava sempre a piscar os olhos, ora levava umas valentes palmadas porque da minha janela cuspia para quem passava na rua. Nada fazia sentido algum, hoje continuo a debater-me com o mesmo problema, mas na altura apenas deixava que fizessem o que quisessem de mim. Um dia um senhor mais velho pegou-me na mão e tentou algo que por sorte minha, não conseguiu concretizar. Por isso, nem sequer uma história de violação tenho para que se justifique uma infância traumática. 

 

Eu simplesmente não entendia nada, na escola ou em casa, que valente confusão. Soube no entanto que fui amada e que vim a este mundo fruto de uma bonita mas imperfeita história de amor. Isso devia bastar para recordar a infância como um período feliz da minha vida, mas não foi. Enquanto fossem os outros a decidir sobre a minha vida e as minhas vontades eu não poderia sequer sentir um travo de felicidade. Valorizo muito o meu espaço, a minha autonomia, a minha vontade e os meus caprichos. Só em adulta comecei a sentir esse poder sobre a minha própria vida e ai cruzei-me pela primeira vez com essa tal de felicidade. Até lá, andei a queimar tempo e esperando a maioridade para ser o que bem entendesse. Hoje sou o que quero, apesar de não me achar lá grande coisa, mas a decisão é exclusivamente minha, fruto das minhas minhas atitudes. Ser adulto faz rugas e cabelos brancos, uma chatice, mas prefiro assim.